Blues

B.B. King mostra o racismo à americana

B.B. King

Filmado em 2004, em São Paulo, durante a turnê de B.B. King (1925-2015) pelo Brasil, o documentário inédito “Black, White and Blues”, dirigido por Ricardo Nauenberg, será exibido pela primeira vez após 17 anos. Com seus arquivos desaparecidos, o filme, que acaba de ser recuperado, traz um contundente depoimento do lendário músico sobre preconceito racial e sobre a evolução dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. O músico não está mais entre nós, mas seu relato contundente joga luz num debate que se faz cada vez mais necessário.

O filme poderá ser visto, de graça, desta quinta (1) até domingo (4), na plataforma ZYX.  Depois, ficará disponível por R$ 10. No filme, em entrevista inédita, B.B. King fala abertamente sobre racismo e sobre o preconceito que sofreu por ser negro, tema bastante atual, que ainda é muito discutido nos dias de hoje. Ele conta também sua visão sobre as mudanças na vida dos negros norte-americanos ao longo de 60 anos, período em que percorreu os Estados Unidos em turnês difundindo o blues. Veja o trailer aqui.

O diretor Ricardo Nauenberg colheu os depoimentos de B.B. King durante turnê do músico pelo Brasil - Foto: Divulgação
O diretor Ricardo Nauenberg colheu os depoimentos de B.B. King durante turnê do músico pelo Brasil – Foto: Divulgação

“B.B. King foi testemunha viva da questão dos negros. E esta foi a primeira vez que ele deu um depoimento falando sobre isso, mostrando o seu olhar sobre a questão”, conta o diretor.

O músico discorre sobre sua infância na pequena Indianola, no Mississipi, onde não havia estúdios musicais e cujas cordas de violão eram vendidas na farmácia. Viveu sozinho dos 9 aos 14 anos, após a morte da mãe e precisou trabalhar na lavoura de algodão para se sustentar. Comprou, com a ajuda do patrão, o primeiro violão, que na época custava o mesmo valor ele ganhava em um mês de trabalho.

No entanto, o mote do filme é mesmo a questão racial. B.B. King conta que antigamente havia dois bebedouros, um para os brancos e outro para os “de cor”, assim como os banheiros, e conta que apanhou muitas vezes por ter usado o banheiro dos brancos. Ele fala também sobre sua trajetória na música e relembra a dolorosa vez em que foi vaiado: “Se você é negro e está ligado ao blues, é como se fosse negro duas vezes”, disse ele, que respondeu ao público cantando a música “Sweet Sixteen”, que diz: “Trate-me mal, mas eu vou continuar te amando da mesma forma”.

O blues foi um dos grandes responsáveis pela aceitação dos negros na sociedade americana, principalmente a partir dos anos 1960. “Descobrimos que muitas pessoas que dificilmente falavam com os negros nas ruas vinham vê-los tocar nos festivais”, ressalta B.B. King, destacando o gênero musical como um passaporte para a mudança.

Antigamente, ninguém queria me ouvir, o que eu tinha para dizer. Hoje vocês tomaram um tempo para vir até aqui e conversar comigo”, disse ele, que aprovou o filme na época e pediu que fosse exibido no B.B. King Museum, museu sobre sua trajetória, que estava sendo criado na época e existe até hoje em sua cidade natal.

Riley Ben King, mais conhecido como B.B. King é considerado um dos mais geniais guitarristas de todos os tempos e, segundo a revista norte-americana Rolling Stone, um dos melhores guitarristas do mundo, ao lado de Eric Clapton e Jimi Hendrix. Com 16 prêmios Grammy, mais de 50 discos e quase 60 anos de carreira, B.B King criou um estilo único, que fez dele um dos músicos mais respeitados e influentes de blues. O seu primeiro grande sucesso foi nos anos 1950 com “Three o’clock blues”. Diversos outros sucessos do astro marcaram época, como “The thrill is gone”, “When love comes to town”, “Payin’ the cost to be the boss”, “How blue can you get”, “Everyday I have the blues”, “Why I sing the blues”, “You don’t know me”, “Please love me” e “You upset me baby”. 

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