hip hop

Bacu Exu do Blues e os cantos da quarentena

No novo álbum, Baco Exu do Blues retoma sua temática mas adiciona a probemática do isolamento - Foto: Divulgação

Num cenário em que várias pessoas se vêem obrigadas a trabalhar, a possibilidade de fazer a quarentena é apresentada como um privilégio social. Essa é uma das conclusões do rapper baiano Baco Exu do Blues. Durante três dias, o artista fechou-se num estúdio doméstico e gravou nove faixas de um EP que acaba de chegar às plataformas digitais. Em “Não tem bacanal na quarentena”, Baco Exu ainda revela sua veia romântica (e sexual), mas não deixa o coronavírus e as mudanças comportamentais impostas à sociedade passar em branco.

Capa do EP “Não tem bacanal na quarentena”. Foto: Divulgação

Na capa com referências ao Covid-19 e ao rapper americano Notorious B.I.G, Baco Exu solta o verbo com a mesma viralidade que marcou seus álbuns anteriores, “Esú” (2017) e “Bluesman” (2018). O terceiro álbum, ainda sem título, seria lançado no início do ano mas foi abatido momentaneamente pela pandemia.

Assim, “Não tem bacanal na quarentena” funciona com uma válvula de escape para a poética do rapper fluir em faixas como “Preso em casa cheio de tesão”’ na qual o rapper reclama da abstinência sexual em tempos de isolamento social. “Quarentena está deixando todo mundo louco/ Só quero trocar ideia e te dar um pouco”, canta Lelle, que participa da faixa.

Em “Tudo vai dar certo”, Baco Exu do Blues faz duo contra cantora, 1LUM3, que já cantara com ele no hit “Me desculpa Jay-Z”, de “Bluesman”. A letra sugere otimismo a certeza de que a morte não é para agora. Tudo emoldurado por um sample de panelas batendo e gritos de “fora, Bolsonaro” na parte final.

Nosso maldito presidente volta a ser citado na faixa de encerramento, “Amo Cardi B e Odeio Bozo”, que resgata áudio da rapper americana alertando sobre a ameaça do coronavírus, que viralizou nas redes sociais. “Trabalhadores na rua/ O papa é pop, quarentena é pop/ Cardi B fez mais que o presidente/ Porra, amo o hip-hop”, canta Bacu Exu. No fim da faixa, áudios de WhatsApp de pessoas no Complexo do Alemão, no Rio; na Cracolândia, em São Paulo; e de outras regiões periféricas retratam, com realismo, a contradição de uma sociedade que prega o isolamento mas deixa os menos favorecidos em situação de vulnerabilidade.

Outro destque do EP é “Humanos não matam deuses”. Na faixa, Baco revela sua fraqilidade: sente medo da violência, que o “olha com sede”. Diz que sua cabeça vale prêmios e que se sente perseguido. “Gostar da cultura não te faz preto/ Você ter dinheiro não te torna branco”, avisa. Temática parceida com a da faixa “Jovem preto rico”.

Em “O sol mais quente”, o artista trabalha a imagem do sol e da pele negra. “O sol mais quente deixa tudo mais claro, mas eu continuo escuro”, canta no refrão. E o coronavírus reaparece nos versos “Coronavírus me lembra a escravidão/ Brancos de fora vindo e fodendo com tudo.”

A participação do ator e ativista negro Babu Santana no Big Brother Brasil 2020 ganha destaque na faixa “Tropa do Babu” em que Baco Exu do Blues se posiciona ao lado do ator e resgata um sample com uma fala de Babu no programa em que ele diz: “O que foi a escravidão? O que são as favelas? Você ainda se espanta com o mundo?”

Ouça o EP completo:

 

 

Deixe uma resposta