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Carlos do Carmo (1939 – 2021) – Sou do fado, sou fadista

Carlos do Carmo

Por Carlos Monteiro

 

A Cidade Maravilhosa na nublada manhã de 3/1/2021 - Foto: Carlos Monteiro
A Cidade Maravilhosa na nublada manhã de 3/1/2021 – Foto: Carlos Monteiro

Neste domingo (3), assim como na véspera, o Rio amanheceu melancólico. A chuva traz essa sensação ao carioca. Habituado a rir de janeiro a janeiro, nestes dias, costumam ficar mais silenciosos. Até os pássaros cantam menos. Amanheceu com densas nuvens no horizonte, triste, “cabisbaixo”, macambúzio talvez. Essa melancolia se dá pela falta que fará, a Cidade Maravilhosa, ao Brasil, a Portugal e ao mundo, o fadista Carlos do Carmo, uma das maiores representações do gênero de todos os tempos.

Falecido no primeiro dia deste ano que se inicia, em Lisboa, cidade que mais cantou e emocionou. Nasceu no Bairro da Bica, coração pulsante do burgo, encimada e protegida pelo Castelo de São Jorge, “…Lisboa, velha cidade,/Cheia de encanto e beleza!/Sempre a sorrir tão formosa,/E no vestir sempre airosa…”. Carmo, com toda certeza, a descreveu como ninguém em versos melódicos, saudosos e cálidos, tinha na voz poesia, no olhar doçura melancólica. Calou-se exatamente nela.

Carlos do Carmo
Carlos do Carmo anos anos 1960 – Foto: Reprodução

Tinha o fado nas veias e a arte no coração e deu a ele um charme todo especial. De sua mãe, Lucília do Carmo, também fadista, herdou a voz, o lamento e o sentimento ao cantar. Do pai, o livreiro Alfredo Almeida, recebeu o dom de divulgar a poesia portuguesa e seus maiores e mais aclamados poetas. De ambos, a oportunidade de mostrar seu talento na casa de fados de sua propriedade, ‘O Faia’, no Bairro Alto, em Lisboa, fundada em 1947 e o charme imenso, e que charme. Rendeu-lhe ‘O Charmoso’. Lá deu seus primeiros acordes vocais junto às guitarras, até iniciar sua talentosa e especial carreira aos 25 anos. Foi para Lisboa, para ‘Portucale’, para o mundo, onde se apresentou nas melhores casas – Olympia, Royal Albert Hall, Ópera de Frankfurt, inclusive no Canecão -, junto a Amália Rodrigues, a maior representatividade do fado português de todos os tempos.

Visão geral da Alfama, o bairro lisboeta eternizado nos grandes fados de ontem, hoje e sempre - Foto: Reprodução
Visão geral da Alfama, o bairro lisboeta eternizado nos grandes fados de ontem, hoje e sempre – Foto: Reprodução

Cantou “Alfama” – que jamais será a mesma sem ele -, a “Mouraria” da velha, amada e lamentosa “Severa”. Ali deixava sua alma, via as procissões a passar, ouvia os cantares maviosos dos rouxinóis como se fora a guitarra a soluçar. Cantou as gaivotas trazidas ao céu de Lisboa, seu coração batia perfeito em seu peito, nessa mão onde cabia seu mais que perfeito coração. Cantou, cantou. Transformou o fado, se tornando o maior representante, na década de 1970, do “Fado Novo”, com marcantes inovações musicais sob influências de seus primorosos gostos musicais. Bebeu na fonte da Bossa Nova, de Elis Regina, Frank Sinatra e Jacques Brel.

“Um Homem na Cidade”, lançado em 1977 é seu mais representativo trabalho nesta mudança. A faixa título, homônima ao álbum, em poema de Ary dos Santos, traz a baila a Revolução dos Cravos aos 25 de abril: “Nas minhas mãos a madrugada/Abriu a flor de Abril também/A flor sem medo perfumada/Com o aroma que o mar tem/Flor de Lisboa bem amada/Que mal me quis, que me quer bem.” Neste álbum a releitura de um dos clássicos do repertório do americano (“I’ve Got You Under My Skin”, de Cole Porter) lhe rendeu com justeza a fama de ser o Sinatra português. Mas Carlos do Carmo tinha brilho próprio, como convém às estrelas. Basta ouvir, além dos lindos fados, sua enorme versatilidade na interpretação de uma pérola do cancioneiro francês (“La Valse a Mille Temps”, de Jacques Brel). E numa vigorosa gravação de “Fado Tropical” (Chico Buarque) ou de “Gracias a La Vida” (Violeta Parra), que Mercedes Sosa eternizou. Portugal, Brasil, Franças, Estados Unidos e América Latina legitimamente representados por um homem no mundo. Ouça este álbum aqui:

Com o prêmio Grammy, o reconhecimento de uma grande artista - Foto: Reprodução
Com o prêmio Grammy, o reconhecimento de um grande artista – Foto: Reprodução

Outros sucessos marcantes, ficarão para sempre impressos em calhas da roda, corações apaixonados, deuses infinitos em princípio e fim: “Lisboa Menina e Moça”, “No Teu Poema”, por José Luís Tinoco – “No teu poema/Existe um verso em branco e sem medida/Um corpo que respira, um céu aberto/Janela debruçada para a vida…”, “Por Morrer uma Andorinha”, “Canoas do Tejo”, “Loucura (Sou do fado)”, “Estranha Forma de Vida”, “Bairro Alto”, “Um Homem na Cidade”, “Partir é Morrer um Pouco”, “O Homem das Castanhas”, “Gaivota”… ufa! a lista é infindável.

O grande fadista deixou os palcos em 2019 - Foto: Reprodução
O grande fadista deixou os palcos em 2019 – Foto: Reprodução

Despediu-se dos palcos em novembro de 2019. Obviamente em Lisboa, no magnífico Coliseu dos Recreios, no São José, aos 57 anos de carreira e legado. Atuou como embaixador a candidatura do Fado a ‘Patrimônio Imaterial da Humanidade’, e desempenhou um “papel fundamental na divulgação dos maiores poetas portugueses”, destacou o júri do Prêmio Vasco Graça Moura de Cidadania Cultural.

O álbum inédito e agora derradeiro, “E Ainda?”, será lançado este ano pela Universal Music. Se contemporâneos fossem, diria que Pessoa versou para ele: “Quem te sagrou criou-te português./Do mar e nós em ti nos deu sinal./Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez./Senhor, falta cumprir-se Portugal!…”.

Pródigo disse Carlos do Carmo certa vez: “Fiz este meu caminho, que não foi das pedras, mas que considero um caminho sempre saudável e que me levou sempre a ter uma perspectiva de ser solidário com os meus companheiros. Não me recordo de ter feito uma sacanice a um colega de profissão. E, para esta nova geração, estou de braços abertos”. E esteve.

Neste domingo choroso no Rio, ainda assim, se fizeram presentes, por entre a neblina, as fragatas que ensaiaram seu balé, com açúcar e afeto sobre a Guanabara, muito provavelmente ao som de “Gaivota”.

O Rio é assim, vive n’alma da gente e, como escreveu Millôr Fernandes: “Olha,/Entre um pingo e outro/A chuva não molha.” portanto, andemos entre os pingos, mas, hoje em especial, o Rio está “Sou do fado/Como sei/Vivo um poema cantado/De um fado que eu inventei//A falar/Não posso dar-me/Mas ponho a alma a cantar/E as almas sabem escutar-me…”

O firmamento está em festa, chora de felicidade e lamentos. Os anjos abandonaram as harpas; agora dedilham guitarras como essas que sempre o acompanharam, como nesta apresentação em Lisboa no ano de 2015:

Para já, o céu é poema!

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