Opinião

Charges, Claudio Santoro e o ‘vrag naroda’ no imperativo categórico da música

Lipe Portinho*
Especial para o Na Caixa de CD

Não foi exatamente o Covid-19 que modificou o business da música e nem será ele que vai modificar seu futuro radicalmente. Vivemos hoje um momento único que isola os fenômenos a serem observados de maneira ímpar, nos dando possibilidade de “controle de experiência”. O que não esperávamos era o retorno da censura às artes. Pensar voltou a ser perigoso. Voltamos, por outras mãos, canetas e togas, ao clima de ditadura e patrulha ideológica, mas numa situação mais pusilânime: não sabemos a quem temos que temer, pois os algozes vêm de todos os lados, independente da filosofia do artista. A censura, ou controle cultural, tem várias faces e ideologias, mas em todos os casos está errada por corromper o princípio da criação artística, e isso não é de hoje. O controle da cultura foi amplamente usado no mundo desde os tempos dos faraós que puniam os músicos que erravam a liturgia, em um tempo no qual o Estado literalmente ditava o repertório. O que nos leva a Claudio Santoro (1919-1989), um dos maiores compositores brasileiros do século XX.

Entre suas múltiplas vitórias, Santoro ganhou o Prêmio Internacional da Paz concedido pelo Conselho Mundial da Paz em Viena no ano de 1952, em plena era Vargas no Brasil. Ele escreveu em sua biografia: “Eu deveria receber o prêmio das mãos do Václav Dobiáš (1909-1978), um compositor tcheco que também recebeu o Prêmio Internacional da Paz, mas o Brasil não lhe deu o visto e ele não pôde vir. Naquela época, a política no Brasil, como sempre, por toda a minha vida, foi muito difícil. Em 54 também. Estavam na direção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro alguns amigos meus e falei com eles sobre a minha sinfonia nº4 e concordaram em levar a obra. O crítico Eurico Nogueira França (1913-1992), que fazia parte do Conselho do Theatro Municipal, veio me dizer que o pessoal estava com medo porque a peça falava em “Paz” e perguntou se eu não podia mudar a palavra, caso contrário a minha obra não seria apresentada.” Para não ter a sua belíssima sinfonia nº 4 censurada, Claudio Santoro trocou uma palavra dos versos do coral extraídos do “Poema da Paz” de Antonieta Dias de Morais e Silva. “Paz” virou “Sol” porque a palavra “Paz” era atribuída à filosofia comunista no Varguismo. Ouça aqui a “Sinfonia nº 4”, em execução pela Orquestra Acadêmica de São Paulo Coral da Cidade de São Paulo, com regência de Natália Larangeira, em concerto no Auditório Ibirapuera em 29 de maio de 2011):

Dmitri Shostakovich
Dmitri Shostakovich – Foto: Reprodução

O caso atual de censura aos chargistas me remeteu a outro exemplo histórico deste desastroso vício. Na Rússia dos anos 1930, Joseph Stalin considerou o gênio Dmitri Shostakovich um “Vrag Naroda” (inimigo do povo, em russo), por duas vezes seguidas em 1936. A primeira vez foi em sua ópera “Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk” que, por influência do partido comunista, teve críticas arrasadoras no jornal Pravda. A obra foi considerada ocidental, modernista e decadente, o que levou a temporada artificialmente ao fracasso depois de uma estreia com sucesso de público. A segunda vez foi no veto à sinfonia nº 4 (coincidência numeral) meses depois, que nem estreou, tendo permanecido inédita até 1961, e hoje são duas obras brilhantes do repertório mais refinado do mundo sinfônico.

Stalin, para não ter que oferecer um destino mais dramático ao já famoso compositor, “convenceu” Dmitri Shostakovich através do argumento do “grande expurgo”, onde vários amigos e familiares do músico foram assassinados para servir de exemplo, a fazer a sinfonia nº 5 com caráter popular, recheada de temas folclóricos pré-aprovados. Ouça aqui os três movimentos da Sinfonia nº 4 de Shostakovich em registro da Royal Scottish National Orchestra, com regência de Neeme Järvi:

Guardadas as proporções, podemos traçar um paralelo “tupiniquim” dessa história com o “tribunal cultural” que os pareceristas da Secretaria de Cultura Federal fazem ao decidir “tecnicamente” quem pode ou não ter a chancela, número de Pronac, para captação de recursos na lei de incentivo à cultura – antiga Rouanet. Desde a criação da Lei Sarney, em 1986, e suas sucessoras, vivemos no Brasil o direcionamento do capital da Cultura através do Estado, e agora estamos vivendo a censura ideológica através dos Três Poderes. Apesar de muitos artistas insistirem no “bem” que as leis de incentivo promovem, o mundo da música, de acordo com o imperativo categórico de qualquer mercado, nunca respondeu positivamente ou de forma natural aos mecanismos artificiais de controle ideológico – que é isso no fim das contas o que as regulações culturais acabam sendo. Sempre identifiquei várias formas onde o Estado interveio, no Brasil e no mundo, de maneira vertical, inadvertidamente, e sequestrou os caminhos naturais da cultura, impreterivelmente com resultados desastrosos.

A música, como a charge ou qualquer outra arte, é uma necessidade do homem. Não podemos regular o que cada um deve ouvir, somente devemos deixar estes decidirem e pelas escolhas livres da sociedade civil faz-se o mercado da cultura, como qualquer outro. Sendo o cidadão maior de idade, consuma a arte que quiser e produza a arte quem puder. Não cria-se demanda consistente nas artes por leis (mas isso é assunto para outra crônica). Nosso Brasil viu, num passado não muito distante, gênios como Cláudio Santoro e artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, entre muitos, infelizmente, passarem pelo controle do Estado brasileiro em situações nefastas. Alguns poucos agora parecem ter se apaixonado pelo ofício de seus antigos carrascos e calam-se vendo a cultura abusada pelos Poderes ditos democráticos ou somente manifestam-se quando a censura atinge seus “protegidos”.  A democracia só pode existir no imperativo categórico da pluralidade cultural.

Céus, que santo Ruy Barbosa nos proteja!

*Mestre pela UFRJ, compositor, maestro, contrabaixista, diretor de cinema e produtor de televisão

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