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Do Jethro Tull brasileiro a uma ‘décadence sans élégance’

Por Luiz Paulo Silva
Especial para o Na Caixa de CD

Capa do compacto duplo de Pedro, Cláudio e Maurício - Foto: Acervo Pessoal
Capa do compacto duplo de Paulo, Cláudio e Maurício – Foto: Acervo Pessoal

Tenho dois vinis que considero raros e guardo com muito carinho. Não tenho ideia do valor que ambos possam ter no mercado. Primeiro, o compacto duplo do Fagner de 1972 (“4 Graus”, “Cavalo Ferro”, “Fim do Mundo” e “Amém, Amém”). O outro, do grupo “Paulo, Cláudio e Maurício” (“Gato no Telhado”, “Pudim”, “Morais Acadêmicas” e “Acordar, Acender”. Quem é Paulo? Quem é Cláudio? Quem é Maurício? Pois é: os irmãos gêmeos Paulo e Cláudio Guimarães tocavam flauta e guitarra, respectivamente, no grupo. E o terceiro componente era o Maurício Maestro (baixo e violão), que depois viria a ser um dos fundadores do excelente Boca Livre. O conjunto ainda tinha o auxílio luxuoso do baterista Gustavo Schroeter que, anos depois, faria parte d’A Cor do Som.

Lançado em 1972, o disco é muito bom. As músicas o Lado A (“Gato no Telhado” e “Pudim”), são instrumentais. À primeira vista, lembra temas jazzísticos, com muito swing, e com alguns toques de blueseiros. Mas pesquisando bem o momento musical da época no Brasil, parece que os “meninos” queriam na verdade alçar voos mais ousados, tentando criar uma versão de rock progressivo com toques brasileiros. Nesse período, Lulu Santos (aliás, Luiz Maurício), já fazia seus experimentos nesse segmento, através do grupo Veludo, e mais tarde no Vímana. Sem falar no Módulo Mil, Som Nosso de Cada Dia e O Terço, que também lançavam seus trabalhos no mesmo estilo. Ouça aqui o compacto duplo:

Lembrando: em 1972, o Jethro Tull tinha lançado o álbum “Thick as a Brick”, considerado por muitos a obra-prima do grupo, com o flautista Ian Anderson exorcizando e hipnotizando os fãs, com seu estilo muito peculiar de tocar. Nesse mesmo ano, também o Yes brindava o mundo com o LP “Close to the Edge”, um marco na história do rock progressivo.

Entrevista de página dupla da Rolling Stone Brasil em edição de 1972 - Foto: Acervo Pessoal
Entrevista de página dupla da Rolling Stone Brasil em edição de 1972 – Foto: Acervo Pessoal

Eu tenho um exemplar da revista Rolling Stone, versão nacional, número 35, de dezembro de 1972, editada pelo meu guru, Luiz Carlos Maciel. Nesse número, há uma entrevista com Paulo, Cláudio e Maurício, e lá pelas tantas, há uma referência a um possível desejo do grupo se tornar uma versão brasileira do Jethro Tull. Pelo menos tinha o flautista…

Em 1979 surgiu o Boca Livre, formado por Maurício Maestro, Zé Renato, Cláudio Nucci e David Tygel, com grande sucesso e muito prestígio junto à crítica e aos especialistas. Depois, Nucci optou por carreira solo e foi substituído por Lourenço Baeta. Mais tarde, David Tygel deu lugar a Fernando Gama, tendo regressado depois. Após idas e vindas, em 2006, o grupo voltou a atuar com sua formação clássica (Maurício, Zé, Tygel e Baeta), fato este que teve agora, em 2021, uma ruptura nada agradável para os fãs do grupo. Alegando divergências políticas (aliás, humanitárias), Zé Renato, Lourenço Baeta e David Tygel deram o fora do grupo.

Realmente é lamentável ver o Maurício Maestro – egresso do grupo vocal Momento 4, que tinha ainda Tygel, Zé Rodrix e Ricardo Villas (um dos presos políticos postos em liberdade no caso sequestro do embaixador americano e que acabou passando anos e e anos na Europa) – apoiando as ideias malucas do atual presidente. É triste ver um artista reproduzir até fake news que são desmentidas a toda hora na mídia. Um primarismo político digno de pena. Vida que segue. Como disse o David Tygel, vamos lutar “pela vacina e pela democracia”.

 

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