Samba

Dominguinhos do Estácio morre aos 79 anos

Dominguinhos do Estácio

Por Fred Soares
Especial para o Na Caixa de CD

 

Novembro de 2019. Quadra da Unidos do Viradouro, em Niterói. Enquanto assistia ao ensaio que rolava em morna temperatura em frente ao palco principal, percebia uma vibração mais quente a alguns metros dali, numa espécie de palco secundário, na parte externa do terreiro da campeã do carnaval do Rio. Curioso, aproximei-me. E me causou uma felicidade imensa ver Dominguinhos do Estácio, de cabelos brancos, arrancar sorrisos e alegria das dezenas de pessoas que o cercavam ao ouvi-lo cantar alguns dos grandes sambas-enredo imortalizados pela sua voz. Ele ainda me emocionou quando, ao me ver, disse no microfone: “vem cá, meu amigo jornalista”. Assim foi o meu último encontro físico com o puxador de voz mais característica de todos que já passaram pelo carnaval carioca.

Dominguinhos, que nos deixou neste domingo (30), era contralto, ou seja, possuía uma voz que, por característica, era feminina, mas de baixa tessitura e timbre intenso e forte. Algo raríssimo entre homens. Este atributo fez dele um cantor único na história do samba do Rio de Janeiro.

Domingos da Costa Ferreira nasceu em 4 de agosto de 1941 no Morro de São Carlos, local fundamental pra se entender a história do samba carioca. A comunidade está situada no bairro do Estácio, onde nasceu nos anos 20 do século passado a primeira de todas as escolas de samba: a Deixa Falar. Ou seja, Dominguinhos veio ao mundo num lugar que respira o principal gênero desta terra de São Sebastião.

Ainda na juventude, nos anos 1960, naturalmente se aproximou de uma das mais fundamentais instituições do nosso carnaval: o Bafo da Onça, famoso bloco de embalo do bairro do Catumbi, anexo ao Estácio. Era ritmista. Dos melhores, diga-se de passagem. Podemos dizer até que a sua formação como sambista foi forjada com a baqueta e o pandeiro na mão. Seu grande desejo, porém, era ganhar uma chance como cantor. Sempre que tinha a oportunidade, dava a sua palinha. Até que foi descoberto por Roberto Saldanha, o Capilé, eterno presidente do Bafo. Dali para o reconhecimento em todo o Rio de Janeiro foi um pulo.

Ao mesmo tempo em que se aproximou da escola de samba Unidos de São Carlos (hoje Estácio de Sá), começou uma carreira no conjunto musical Exporta Samba. Enquanto gravava com os companheiros de grupo seus primeiros discos, ganhava destaque como primeiro puxador da escola de samba do Estácio. Cantou pela primeira na Avenida Presidente Antônio Carlos, em 1975, quando a São Carlos desfilou com a “Festa do Círio de Nazaré”, até hoje um grande sucesso. O primeiro registro fonográfico de Dominguinhos pela sua escola, porém, é do ano seguinte, quando gravou “Arte Negra na Legendária Bahia”, outra composição histórica da vermelho e branco.

Dominguinhos do Estácio
Dominguinhos na Passarela do Samba defendendo as cores da Imperatriz Leopoldinense – Foto: Reprodução

Seguiu na sua escola do coração até 1978. No ano seguinte, foi personagem de algo que passaria a ser corriqueiro. Cantor profissional, aceitou defender outra escola de samba, a Imperatriz Leopoldinense. Estreou em 1979 e, nos dois anos seguintes, foi bicampeão, cantando e compondo os sambas vencedores daquelas disputas carnavalescas. Voltou às origens em 1984, quando a escola foi rebatizada de Estácio de Sá, no ano da inauguração do Sambódromo. Fez o caminho de volta a Ramos em 1989, quando conduziu a Imperatriz a um glorioso título, com “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós”. Um detalhe: Dominguinhos não era um dos autores do histórico samba. Porém, como compositor, havia chegado na final do concurso que decidiria a música que iria à Avenida. Perdeu. E reconheceu que venceu aquele que poderia mais bem servir à agremiação.

Neste momento, Dominguinhos ainda se aventurou a gravar alguns LPs solo, como “Bom ambiente” (1986), “Além de Mim” (1987), “Momentos” (1988), “Gosto de Festa” (1989), “Cor da Paz” (1991), “Mar de Esperança” (1992) e “Palavras” (1995). Teve ainda uma breve passagem na Acadêmicos do Grande Rio antes de retornar à sua Estácio de Sá em 1992. Ano marcante, pois ali, num desempenho inesquecível, foi decisivo para levar a escola do Berço do Samba ao seu único título com “Paulicéia Desvairada”. Confira alguns momentos desse desfile histórico para a simpática escola e a interpretação marcante de Dominguinhos do Estácio:

Houve tempo para mais um grande feito na sua carreira trajetória carnavalesca: foi contratado pela Unidos do Viradouro para levá-la, assim como fizera com o Estácio, a seu primeiro título em 1997, com “Trevas! Luz! A Explosão do Universo”. A carreira nas escolas de samba seguiu até há pouco tempo, com novas passagens por Imperatriz e Estácio de Sá.

Seu último momento na escola do coração proporcionou uma linda história. Esta não testemunhada por mim, mas por meu amigo Chico Frota, comunicador e produtor musical. O fato se passou no estúdio onde foi produzido o CD das escolas de samba da Série A de 2015. Dominguinhos do Estácio já não era o principal cantor. Mas foi ao estúdio para acompanhar a gravação, que seria conduzida por Leandro Santos, o puxador oficial. O velho intérprete chegou mais cedo e foi convidado a gravar. Ele não quis, para não ferir suscetibilidades. Mas Chico Frota insistiu. E, como se fala no jargão das produções fonográficas, o Seu Domingos gravou de primeira. O produtor-chefe Leonardo Bessa não pensou duas vezes e incluiu este registro naquela produção. Acabou por ser um momento histórico e de ode a esse grande cantor, que ainda fez uma participação especial na faixa da Viradouro em 2018.

Um parentêses aqui: essa e outras boas histórias podem ser vistas numa live que, ao lado do amigo Frota, fiz com o grande Dominguinhos do Estácio:

Depois disso, apesar dos problemas de saúde que passaram a persegui-lo, seguiu trabalhando. Mais do que um simples cantor, era um ferrenho defensor da arte popular e do samba carioca. E assim foi até seus últimos momentos, mesmo com todas as dificuldades impostas pela frágil saúde. Mas como um grande guerreiro cumpriu o seu papel e agora deixa a vida para virar um capítulo de ouro na história do samba.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *