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Fito Paez, a quarentena e o desejo de (re)conquistar o espaço

Capa do álbum ‘La Conquista del Espacio’, de Fito Paez – Foto: Divulgação

Em 13 de março, já na quarentena, Fito Paez comemorou seus 57 anos lançou seu mais novo trabalho, o 30º álbum de estúdio, chamado “La Conquista del Espacio”. Numa entrevista à webradio LA W, ele revelou estar obedecendo as recomendações de isolamento social com a filha e elogiou o comportamento da população de Buenos Aires durante a crise sanitária. Segundo ele, mais de 90% dos residentes na capital argentina compreendem a importância de ficar em casa. A pandemia frustrou os planos de Fito de sair em turnê de lançamento do álbum. A conquista prometida pelo irriquieto artista terá de esperar ‘un poquito más’.

Devido às restrições de eventos durante este período restou a Fito Paez apresentar as novas canções num pocket show em streaming, feito em casa no dia 20 de março. “Foi muito estranho. Você precisa se concentrar como em um show, mudar a lista de temas e conversar com as pessoas. O mais bonito foi a quantidade de agradecimentos que recebi”, comentou.

Gravado nos Estados Unidos (Capitol Studio, em Hollywood; Ocean Way Nashville Studio, em Nashville; e no Igloo Music, em Burbank), “La Conquista del Espacio” reúne nove canções da novíssima safra deste compositor que deu ao rock argentino uma dimensão global, mas Fito não é nada afeito a rótulos e deixa a mente livre para criar num universo musical próprio. Fito tem o hábito de produzir seus trabalhos, mas desta vez contou com a colaboração de de Diego Olivero e Gustavo Borne. O álbum contém ainda as participações especiais de artistas da noa cena pop argentina como Juanes, Lali, María Campos, Ca7riel, Franco Saglietti (Francisca y los Exploradores), Mateo Sujatovich (Conociendo Rusia), Hernán “Mala Fama” Coronel e Nacho Godoy.

“O álbum nasceu incorreto, cheio de contradições, não há nada a favor de progressismo, só falo a favor da liberdade e que o coração do partido mora no centro do caos ”, avisa Fito Paez no release do álbum. Em outra entrevista, desta vez ao jornal Página 12, de Buenos Aires, o artista comenta, uma a uma, as nove faixas de “La Conquista del Espacio”. Abaixo, uma tradução livre que fizemos para os nossos leitores:

La conquista del espacio: “Tudo começou em janeiro em Córdoba, onde gravei algumas ideias musicais. Depois de alguns meses, desta vez em Trancoso (Bahia), ouço tudo de novo e começo a fazer salsa. Juntamente com Diego Olivero, de volta a Buenos Aires, começamos a pensar na estrutura melódica, no uso de cordas por tratar-se de uma música épica, com um texto épico, dizendo algo bonito sobre o momento em que vivemos e que a cápsula se tornaria uma cápsula invisível que nos levaria à conquista do espaço”.

Resucitar:  “Diego Olivero, que é um grande artista, ficou preso vários dias com os arranjos deste tema. O clima e a corda me deram algo esotérico e macabro ligado à morte, o vídeo coloca tudo em dúvida… Os sons desencadeiam ideias sobre a letra. As letras, no final, se tornam ambíguas: ‘Não é fácil viver com a dor que te causei, mas estou começando a me sentir bem’. ”

Las cosas que me hacen bien: “Diego e eu queríamos um momento de relaxamento e abandono, sem tanto retorno harmônico. Como produtor, ele conseguiu produzir duas músicas de uma música que tínhamos no Brasil, e essa é uma delas. É como deixar ir. A letra diz: ‘Então vamos com a cumbia, com a massa, o perreo, o fernet com a Coca Cola e o coelho também.’ ”

La canción de las bestias:  “A besta é do tipo que carrega o peso, o escravo, lá eu me represento e lá vejo todos os seres humanos. Somos todos bestas; até o assassino mais impuro tem coração e isso tem valor É dito na primeira pessoa: eu sou a fera, eu assumo o controle, é por isso que estou tão animado com a música”.

Fito Paez na varanda sua casa, em Rosario - Foto: Reprodução/Facebook
Fito Paez na varanda sua casa, em Buenos Aires – Foto: Reprodução/Facebook

Gente en la calle:  “Tínhamos o fragmento do refrão de Córdoba. Até que a frase Street People caiu sozinha e a letra saiu quase inteiramente. Ele estava falando de algo que todos sabemos e acontece em todas as cidades do mundo, tantas pessoas dormindo na rua. Foi uma melodia linda, mas com uma história terrível, o que também acontece com as músicas que eu faço”.

Ey, You!: “Esse tópico passou por muitas opções e letras possíveis até que em Los Angeles fui tomado por uma metralhadora giratória e comecei a falar sobre violência em geral com um texto que era muito mais longo. E enviei tudo para Hernán (da Bad Fame), digo a ele sobre o que é a música e ele me diz: ‘esse tema deve ser dançar e conversar sobre os caras que atingem as minas’. Ele limpou tudo com maestria e me entregou uma mensagem com um jargão meio patético. No final, a música gera um espaço vital para dançar, além de nomear algo terrível ”.

Nadie es de nadie “Há algo nos seus sessenta anos, do tipo Flower Power, com situações nas quais as pessoas podem se assustar. Às vezes você sai da norma e faz um coisas bárbaras. Nem todos nós estamos em busca de liberdades. Às vezes, quando você convida as pessoas para a liberdade, muitas fogem. Eu sempre olho para eles com a minha bebida na mão e de vez em quando toco piano para eles”.

Maelström: “Parece uma música média de Elton John, ligada a um homem com problemas de relacionamento. A figura de Maelström vem de uma história de Edgard Allan Poe, ‘Uma descida para Maelström’, relacionada a uma tempestade que ocorre nos fiordes da Noruega. A metáfora tem a ver com o fato de que todos entramos em Maelström com uma vida cheia de desafios que alguns têm a sorte de superar. Espero que a curiosidade sobre a este nome leve o público à descoberta de um escritor como Poe.

Todo se olvida:  “Essa música começa com ‘Amor é o melhor sentimento, amor é a palavra perfeita, amor é sagrado, amor é a única coisa que lhe dará liberdade’ e tudo, o coração do álbum. ‘As luzes do meu bairro são as da minha vida, as da minha eternidade’, possivelmente as influências dos grandes escritores de tango. E termina com ‘e eu continuo cantando, abraçando a música, e toda noite eu saúdo, vamos continuar dançando amor, então tudo é esquecido’. E no final de tudo isso, um cara aparece com uma máquina de escrever, e há algo bonito que o álbum de redenção tem sobre essa ideia muito agnóstica e brutal. ”

Ouça o álbum completo aqui:

Mais sobre o artista em:

Com a palavra, Fito Páez

2 thoughts on “Fito Paez, a quarentena e o desejo de (re)conquistar o espaço

  1. Não conhecia o a música do argentino Fito Paez, mas me surpreendi com a qualidade vocal e instrumental de todas as músicas. Naipes de metais e violinos adornam quase a totalidade das músicas. É música feita de forma orgânica. Fiquei muito contente em conhecer essa música argentina. É boa música e isso é o que importa.

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