Rock

Frank Zappa e sua quase campanha para a Casa Branca

Em função da reta final das eleições nos Estados Unidos muito se discutiu sobre o modelo de votação para a presidência daquele país e a própria primazia dos dois partidos dominantes. Apenas em 1992 um candidato não-republicano ou não-democrata dividiu os holofotes. Era o independente Ross Perot, um excêntrico milionário texano que abocanhou 18% dos votos em todo o país em 1992. O que pouca gente sabe é Perot animou-se com a possibilidade de viabilizar uma terceira via no país a partir das ideias de um dos mais talentosos músicos e compositores americanos: Frank Zappa.

O líder do Mothers of Invention morreu em 1993, vítima de um câncer diagnosticado dois anos antes.

Não fosse a doença, Zappa cogitava disputar a Casa Branca como candidato independente. Ao longo de 1990, concedeu algumas entrevistas admitindo a possibilidade.

Ele contou à época que tudo começou quando ouviu de um cientista político que atuou como consultor republicano que os Estados Unidos precisavam romper com a hegemonia política de conservadores (republicanos) e liberais (democratas) para promover mudanças de fato.

Frank Zappa e Vaclav Havel, em 1990 - Foto: Reprodução
Frank Zappa e Vaclav Havel, em 1990 – Foto: Reprodução

E Zappa não era exatamente o que pudesse chamar de um outsider completo. Ativista das liberdades civis, Zappa esteve à frente do movimento de resistência dos artistas à introdução do selo de advertência de conteúdo nas capas dos álbuns, o que era visto como uma forma de censura. E vinha de um período na República Tcheca onde atuou como conselheiro do então presidente Vaclav Havel para questões de política cultural.

Ex-integrante de uma banda chamada Plastic People (inspiradpo em uma canção zappiana), Havel se dizia fortemente influenciado musical e politicamente por Zappa e pelo Velvet Underground, de Lou Reed. Naquela mesma época, o artista americano prestou um consultoria em política cultural.  O presidente  cogitou nomeá-lo ministro, mas foi “desaconselhado” pelo Departamento de Estado americano. “Ou você se relaciona politicamente com Frank Zappa ou com o governo americano”, teria dito um representante do governo George Bush ao líder tcheco.

Capa do ábum ''Zappa for President', um manifesto político-musical - Foto: Reprodução
Capa do ábum ”Zappa for President’, um manifesto político-musical – Foto: Reprodução

Nas entrevistas que concedeu sobre a possibilidade de disputar a presidência dos EUA, Zappa chegou a dizer que o principal financiador de sua empreitada política seria um bilionário do Texas (adivinha quem?).

Além de um manifesto político, Zappa teria um álbum para expor seu ideário. Trata-se de “Zappa for President”, que não foi lançado à época, chegando ao mercado como um trabalho póstumo somente em 2016, 23 anos depois de sua morte, justamente no ano em que o nefasto Donald Trump venceria o pleito. Bem que Zappa poderia estar ali.  São sete faixas inéditas que Zappa compôs no período em que mais se mostrava engajado politicamente. Todas as canções foram compostas as partir de um synclavier, um tipo de sampler que começava a se popularizar no início dos anos 1990.

No melhor estilo Frank Zappa, o álbum é devastador na crítica aos costumes do país, sobretudo de sua classe política. Segue abaixo a íntegra da fala de do músico na quarta faixa chamada “If I was President” em que ele não canta, mas faz literalmente um discurso e apresenta linhas gerais do que acreditava ser melhor para a América e para o mundo:

 

 

‘If I Was President’, por Frank Zappa

“Se eu fosse presidente? Acho que faria um bom trabalho. Porque, antes de mais nada, não devo nada a ninguém. E não acredito na plataforma de nenhuma das partes. Então, eu começaria do zero e inventaria conforme fosse avançando. E não há nenhuma maneira de alguém em qualquer cargo público conseguir 100% do público gostando de suas políticas, então você simplesmente considera isso um dado adquirido. E você pode fazer coisas”.

Frank Zappa“Se eu fosse concorrer, aqui está exatamente o que eu faria: em primeiro lugar, gostaria de me candidatar sem me ligar a qualquer partido. E tudo que eu faria seria levantar dinheiro suficiente para estar nas cédulas de votação de todos os estados, mas não faria campanha. Acho que a mídia iria me ligar para me perguntar ‘o que você acha disso?’ E eu responderia. Deixe os outros caras gastarem seu dinheiro e discutirem sobre isso. Simplesmente estando completamente fora do circuito, acho que você poderia colocar informações suficientes para a reflexão da sociedade para que ela saiba o que penso sobre várias coisas. E no dia em que eles fossem para a votação, quando eles estivessem fartos de Willie Hortons (detento que cometeu um crime durante um período concedido para passar fora do presídio com a família – tema que ocupou grande espaço na campanha presidencial de 1988) da próxima temporada ou o que quer que fosse, haveria uma alternativa. Haveria apenas algo que você poderia marcar na caixa que lhe permitiria votar contra o resto do que é política”.

“Seja eu ou outra pessoa, acho que essa é a chave para quebrar a forma como a política é conduzida nos Estados Unidos, porque vai demorar muito até que qualquer um desses praticantes realmente mude o procedimento eleitoral. Eles não vão tornar as coisas mais justas, não vão diminuir os gastos, vão apenas tentar manter as coisas do jeito que estão. E a única esperança de que essa democracia – e eu uso a palavra deliberadamente no caso dos Estados Unidos, porque está quase evaporando – a única maneira de você ter uma escolha é alguém surgir do nada e fazer isso apenas maneira que descrevi, completamente fora do sistema, o mais simples possível”.

“E isso permitiria aos eleitores fartos que estão sempre dizendo que uma das razões pelas quais não vão às urnas é porque não há escolha – se eles sabem que desta vez eles teriam uma escolha, não importa se – seja qual for o candidato. Só para ter uma terceira caixa que você possa verificar”.

“Esses caras com esses – o cabelo do capacete, esses caras moldados sob encomenda que borrifaram o cabelo nunca se mexem e todos eles fazem assim e assim – têm esses pequenos gestos terríveis que saíram de uma revista em quadrinhos em algum lugar e dizem as mesmas coisas e . . uh, é chato e não é sincero. Acho difícil acreditar que 250 milhões de pessoas neste país realmente acreditem nisso. Acho que a razão pela qual eles são capazes de manter suas posições ou de entrar no escritório em primeiro lugar é porque não há ninguém disposto a olhar para eles e dizer: “Você é falso! – apenas isso. Eu sinto por você que você tem que viver sua vida sendo uma farsa. ”

 

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