MPB

Gal Costa em eterno estado de reinvenção

Por João Victor Ferreira

Capa do álbum 'Nenhuma Dor', de Gal Costa - Fotos: Divulgação
Capa do álbum ‘Nenhuma Dor’, de Gal Costa – Fotos: Divulgação

Com 75 anos de vida e 55 de carreira musical, a baiana Maria da Graça Costa Penna Burgos, mundialmente conhecida como Gal Costa, reinventa o repertório e se aproxima ainda mais de um público jovem, ao lançar o disco “Nenhuma Dor” (Biscoito Fino). Partindo da estratégia de reinventar sucessos consagrados da carreira, no formato de duetos, Gal aposta novamente em uma revolução da sua discografia, em um álbum que representa a variedade e experimentação musical:  fundamentos da jornada que a cantora construiu ao longo dos anos.

Depois de “Recanto” (2011), produzido por Caetano e Moreno Veloso, a cantora já havia mostrado uma predisposição a se aproximar de um público mais jovem e moderno. Mesmo materialmente envelhecendo, Gal parece ter seu espírito renovado, cada ano que passa, ao arriscar novas abordagens, dentro da música eletrônica, somada ao experimentalismo que nunca se esvaiu, desde os anos 1960.

Dentro do repertório dos jovens musicistas de MPB, ano após ano, as raízes clássicas da Bossa Nova são referidas como matéria-prima das diversas composições modernas. Esse resgate ao passado não seria possível sem a presença de Gal que, como intérprete, popularizou, em sua voz, clássicos de João Gilberto, além de inclusive “passar o bastão” de Nara Leão a uma geração tropicalista dos anos 1960.

Essa relevância musical repercute até hoje, fazendo com que a voz desta intérprete se apresente como maior referência musical de MPB para essa nova geração. Gal sempre trouxe consigo toda a carga musical mais clássica da Bossa Nova, com uma roupagem contemporaneamente moderna e inovadora. Os fãs mais jovens entenderam o porquê dela ser tão contemporânea.

O álbum em si

Dentro desse interim, o álbum “Nenhuma Dor” parece completar perfeitamente esse ciclo de inspirações, dando voz a essa nova geração que usa Gal como musa: uma musa acessível, protagonista dessa releitura de clássicos inspiradores, nos arranjos específicos de cada convidado.

Por conta da pandemia, não seria possível reunir todos os artistas em um estúdio para compor os duetos. A limitação, no entanto, veio em boa hora, de modo que esse trabalho remoto pôde proporcionar uma dupla adaptação de Gal a seus convidados, e vice e versa.

Como já havia sido exposto pela cantora baiana, em suas redes sociais, os convidados lhe entregavam a sua versão dos clássicos de Gal, de modo que todos previamente já estariam adequados ao estilo tonal soprano da intérprete. Mesmo em vozes completamente contrastantes – desde o grave poderoso de Seu Jorge, até a leveza lírica de Zeca Veloso –, todos se moldavam à potência e a diversificação vocal de Costa.

Já no lado da cantora, recebendo as gravações em que deveria “cantar por cima”, Gal se reinventa ao se adaptar aos diferentes arranjos musicais escolhidos pelos convidados, alterando completamente a forma que ouvíamos essas canções. Um desafio e tanto: para o público e para Gal. A baiana parece se adaptar, como um camaleão, a arranjos que vão desde a Bossa Nova clássica (como em “Avarandado”), até o estilo mais pop (em “Paula e Bebeto”), ou ainda o instrumental lírico (na canção “Baby”). Nada que exija demais de uma artista que já mostrou, em sua carreira, um jogo de cintura corajoso e elegante.

Desde o final de 2019, quando a cantora já havia contado com a participação de Rubel e Silva em suas apresentações, o produtor musical Marcos Preto já havia sugerido o formato de duetos, acrescentando apenas os nomes de Tim Bernardes e Criolo. As bases foram todas compostas, mas foi só durante o isolamento que Gal decidiu retomar a ideia, lançando os singles separadamente, nas plataformas digitais, durante o ano de 2020.

Foi só em 2021 que todas as músicas foram reunidas em formato de disco, inclusive contando com a versão física em CD e vinil, na sexta-feira do dia 12 de fevereiro.  Há uma predominância de convidados masculinos, juntando-se a eles nomes como Seu Jorge, Rodrigo Amarante, Zeca Veloso, Jorge Drexler, Zé Ibarra e António Zambujo. Ouça o álbum aqui:

 

Com o repertório já pré-determinado, coube aos participantes montarem esse “quebra-cabeças”, escolhendo cada um a música que iria interpretar. As escolhas contemplam o repertório da fase áurea da baiana (anos 1960 e 1970), com exceção de “Meu Bem, Meu Mal” (lançada em 1981). Todas as faixas do álbum contribuem para reforçar a unidade sonora da discografia de Gal. Ainda assim, são válidos alguns destaques individuais.

“Baby”

A música escolhida por Tim Bernardes, com a justificativa de ser uma das melhores canções pop já feitas, ganha um arranjo completamente distinto, com arranjos acústicos de lirismo, característica da MPB dessa novíssima geração. A nova roupagem da canção que Caetano havia escrito para Gal parece inclusive entregar uma voz muito mais ciente e elegante da baiana, mesmo em seus 75 anos.

“Paula e Bebeto”

Já a canção que Milton Nascimento havia emprestado para a cantora, desde 1978, ganha uma versão talvez mais moderna, com a voz de Criolo. É uma das canções do álbum com mais “cara” de dueto, de modo que as vozes parecem se encaixar perfeitamente, na mesma composição tonal. A música é ritmada, animada e arrojada: parece realmente uma boa escolha para um “single“.

“Juventude Transviada”

Talvez a mais impactante do álbum, por juntar vozes tão contrastantes e potentes como a de Gal e Seu Jorge. O início da canção soa quase como uma narração cinematográfica, cantada à soleira do ouvido, pelos sussurros de Seu Jorge. No maior estilo “dois bicudos não se beijam” seria muito fácil que as duas vozes potentes, de tons completamente distintos, não combinassem em uma mesma composição. A nova versão da música de Luiz Melodia, na verdade, supera todas essas expectativas, tornando-se um verdadeiro hino do álbum.

Estratosférica

Para aqueles que acham contraditório a estética de multiplicidades sonoras formarem um álbum coeso, cheio de identidade, digo que esse sempre foi o estilo de Gal Costa. Seja experimentando, reinventando, parodiando, relembrando, a salvadorenha fundou seu estilo em cima do que a cultura brasileira tem de melhor: a identidade dentro da multiplicidade. É essa unidade estética, vinda da diversidade sonora, que faz a cantora ser o que foi, o que é e o que será. Gal não é isso, nem aquilo: ela é tudo. Estratosférica!

É assim que “Nenhuma Dor”, nas palavras de Caetano Veloso, interpretadas pela voz de Gal Costa na canção “Meu Bem, Meu Mal”, torna-se “bálsamo benigno” para nós, fãs da musa brasileira, em tempos tão difíceis para o Brasil.

 

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