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João Donato e Jards Macalé em encontro inédito

Jards Macalé a João Donato confraternizam nos intervalos de gravação do álbum 'Síntese do lance' - Foto: João Atala

Aos 88 anos de idade e mais de 70 anos de carreira profissional, João Donato acumula parcerias musicais com artistas de várias partes do mundo. Poderia estar numa zona de conforto, mas segue movido pelo signo da curiosidade, da inovação. Num palco ou num estúdio, o velho instrumentista e compositor é um garoto a transpirar música. Está neste momento envolvido em pelo menos três projetos e o primeiro deles a sair do forno é um encontro musical inédito com Jards Macalé. A dupla trancou-se dez dias no estúdio da gravadora Rocinante em Araras, distrito de Petrópolis (RJ), para gravar um álbum de inéditas. A curiosidade sobre o que vem por aí é grande e uma pequena mostra já pode ser conferida nas plataformas digitais: o single “Síntese do Lance”, composição de Donato com o trombonista Marlon Sette.

Donato conta que estava folheando um caderno de composições e encontrou uns rabiscos com esse título e trechos de partitura que apontavam para um ponto de umbanda. “Traduzindo em miúdos: a síntese do lance é extrair o néctar, o âmago das coisas. É ir direto ao ponto. A música corre fácil, fazendo a vida ficar mais simples e foi inspirada na entidade do Zé Pelintra”, explica Donato. A faixa é jovial como a alma desta nova dupla. “Tem um vigor e um balanço muito bons. É a última música do disco e virou a primeira a apresentar o nosso álbum, que também leva esse nome”, explica Macalé.

João Donato e Jards Macalé nunca haviam compartilhado estúdio ou palco até que Sylvio Fraga, sócio de Pepê Monnerat na Rocinante, mudou um pouco o rumo da história. “Queríamos gravar um disco com o Donato e tínhamos acabado de gravar um com o Jards interpretando Zé Kéti, que vamos lançar em breve. Um dia deu um estalo e imaginei os dois compondo, tocando e cantando juntos – Eles toparam na hora! Um sonho”, comemora Sylvio. Confira aqui a faixa-título:

“Achei desafiador passar aqueles dias em Araras, um lugar lindo cercado de verde,  criando novas canções e arranjos em tempo real com músicos que tanto admiro. E o Jards tem uma voz singular, inconfundível do Macalé”, comenta Donato. E quem ouviu os dois cantando juntos achou a combinação das vozes perfeita, aquela junção da voz mansa do acreano, suave com as águas de um iguarapé, com a urbanidade malandra que vem de Jards Macalé.

O músico veterano também mostrou-se positivamente surpreso com uma comunidade que vive próxima ao estúdio, praticante da linha de candomblé Jêje. “Botaram uma percussão que deu um sotaque igualmente único para o disco”, acrescenta Donato, que está participando de um projeto musical da Natura e pretende lançar em breve um álbum com seu filho, o tecladista Donatinho.

A certa altura da música, um coro não planejado entra em ação. “Foi espontâneo. Todas as pessoas que estavam no estúdio, os instrumentistas, Rejane e Ivone, nossas companheiras, foram chamados a cantar. Virou um congraçamento, já que foi a nossa última sessão no estúdio da Rocinante, em Araras”, rebobina Jards Macalé. Donato pontua que música religiosa costuma ter coro.

A parceria com Marlon Sette, que assina os arranjos de metais e a produção musical do disco, co-produzido por Sylvio e Pepê, se concretizou quando Donato chamou ele para completar aquele esboço no caderno. “Marlon escreveu uma segunda parte muito bonita e ficamos muito alegres com essa música. Tudo o que nos alegra é mais do que bem vindo!”, comemora João Donato. Gravado em estúdio analógico, o álbum “Síntese do Lance” terá dez faixas e está previsto para a primeira quinzena de outubro.

 

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