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João Nogueira – Um espelho quebrado há 20 anos

JOão Nogueira
Por Fred Soares – @fredaosoares
Especial para o Na Caixa de CD

João Batista Nogueira nasceu no Sergipe. Desde garoto, demonstrava aptidão pela música. No entanto, o rico cancioneiro nordestino não tocou o coração daquele homem, que só no Rio de Janeiro, anos depois, abraçou uma de suas grandes paixões: o chorinho. Com o violão debaixo do braço, virou habitué da boemia carioca ao lado de monstros sagrados da MPB, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Jacob do Bandolim. Ser instrumentista dessas feras já era bastante. Porém, o maior legado que o “Seu” Nogueira deixou para a nossa música chegou por aqui, no Rio de Janeiro, em 12 de novembro de 1941 e atendia pelo nome de João Batista Nogueira Filho, que ficou definitivamente consagrado no panteão do samba brasileiro apenas como João Nogueira. Há exatos 20 anos, o espelho se quebrou, e o grande compositor carioca nos deixava, mas não sem antes deixar uma enorme lista de canções que embala as rodas pela cidade, pelo Brasil e até mundo afora.

O rubro-negro João com o tricolor Cartola: um Fla-Flu de sonho – Foto: Reprodução

João Nogueira foi a representação do bom malandro urbano carioca da segunda metade do século 20 (nasceu no Méier e foi puxador de bloco carnavalesco). Fala mansa, esperteza nos gestos e muito romance na ponta da língua, era a síntese do mulato e boêmio que, por influência do pai, deixou-se ser picado pelo mosquito que trazia o micróbio do samba. A carreira artística teve início no fim dos anos 60, época dourada da MPB. Mas o primeiro sucesso só veio nos anos 70. E, pasmem, graças a um episódio geopolítico que virou assunto nacional: a expansão em 200 milhas da nossa fronteira marítima na plataforma continental. O samba foi gravado por Eliana Pittman e associou erroneamente o compositor ao grupo de artistas que demonstraria apoio ao regime militar. Ledo engano. João, nos anos seguintes, mostrou-se um ativista do samba, mas também um militante em prol da redemocratização do país.

João Nogueira e seu mais constante parceiro, Paulo César Pinheiro - Foto: Acervo Pessoal
João Nogueira e seu mais constante parceiro, Paulo César Pinheiro – Foto: Acervo Pessoal

Apesar do sucesso, o menino de 15 anos que aprendeu a tocar violão de ouvido preferia apontar como seu primeiro golaço na MPB uma música gravada anos antes, por Elizeth Cardoso: “Espere, ó Nega”. Opiniões à parte, o fato é que ele já era apontado como um compositor de talento. Mas com o microfone em punho, sua carreira subiu mais um degrau quando gravou o excelente “O Homem de um Braço Só”, uma ode ao bicheiro Natal da Portela, patrono da sua escola recentemente falecido na ocasião. A partir dali, suas interpretações de balanço irrepreensivel, dicção perfeita e divisão original caíram no gosto popular e o elevaram à condição de um dos maiorais da música. Condição confirmada com o lançamento do clássico “Espelho”, sua maior obra em parceria com o amigo Paulo Cesar Pinheiro, em homenagem a seu velho pai, que havia morrido quando o pequeno João tinha apenas 10 anos. Tempo suficiente para que herdasse a paixão pelo Flamengo, a quem homenageou com uma notável regravação adaptada ao fim dos anos 70 do “Samba Rubro-Negro”, de Wilson Batista, um dos seus mentores musicais ao lado de Noel Rosa e Ciro Monteiro. Ouça aqui “Espelho”, gravação feita para o programa Ensaio, da TV Cultura, em 1992: 

Mais que artista, um ativista cultural

Com o ex-jogador Zizinho e Roberto Ribeiro no Clube do Samba - Foto: Reprodução
Com Casquinha e Roberto Ribeiro no Clube do Samba – Foto: Reprodução

João já tinha estofo suficiente para ir além da condição de artista. Virou um ativista cultural. Em 1979, ao lado de outros sambistas temerosos com a excessiva e, segundo ele, maléfica influência externa sobre o gênero, resolveu fundar na Rua José Veríssimo, no Méier, no quintal da casa do “Seu Nogueira” o Clube do Samba. Um bloco de carnaval que, assim como o Quilombo idealizado pelo também portelense Candeia, visava a preservação do samba na sua mais pura essência. O grupo também virou uma das atrações do carnaval do Rio nos anos 80, em concorridos desfiles na Avenida Rio Branco.

Embora tivesse notória aproximação com a sua Portela, desfilando com frequência nas avenidas do carnaval, foi no Clube do Samba que, até então, João Nogueira encontrou a sua ligação mais umbilical com o carnaval. Essa situação mudou em meados dos anos 80 quando, numa outra manifestação de ativismo cultural, deixou a sua Portela. E mais do que isso: ajudou a fundar uma escola de samba ao lado de outros dissidentes da gloriosa agremiação de Madureira. Era o surgimento da escola de samba Portela Tradição que, por decisão judicial, passou a se chamar apenas Tradição.

Os (poucos) sambas enredo de João

Foi aí que João deixou a sua imensa colaboração para o samba-enredo, algo que não conseguiu realizar para a Portela. O compositor, junto com Pinheiro, produziu três obras-primas desse subgênero que, talvez por terem sido apresentadas em grupos inferiores do carnaval carioca, não sejam tão badaladas: “Xingu, o pássaro guerreiro (1985), “”Rei Sinhô, Rei Zumbi, Rei Nagô – Eu também tô aí, tô aí sim sinhô “ (1986) e “Sonhos de Natal”(1987). Os três sambas levaram a caçula agremiação a subir do quarto grupo para o principal das escolas do Rio de Janeiro em apenas três anos. Algo inédito nos mais de 50 anos do maior cotejo do samba.

Não parou por aí: ainda emplacou, com seu velho parceiro, “O Melhor da Raça, o Melhor do Carnaval” (1988) e “Rio, Samba, Amor e Tradição” (1989), ambos no Grupo Especial. Foram os cinco únicos sambas-enredos compostos por João.

Foi a assinatura que fechou o ciclo artístico deste fundamental compositor carioca, que ainda brilhou intensamente por mais uma década até que a morte o levou no ano em que completaria 59 anos. Uma carreira curta, de pouco mais de 30 anos, mas que, como bom espelho do pai, deixou um legado que até hoje encanta corpos e corações.

Assista, abaixo, o documentário “Carioca Suburbano Mulato Malandro: João Nogueira” (1979), com direção de Job Azulay e roteiro do jornalista Sergio Cabral (o bom Sérgio Cabral, diga-se de passagem), do o próprio João e de Azulay:

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