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Juliana Linhares e seu Nordeste sem clichês

Capa do álbum 'Nordeste Ficção'. de Juliana Linhares - Foto: Divulgação de
Capa do álbum ‘Nordeste Ficção’. de Juliana Linhares – Foto: Divulgação de

Quando a vi cantando pelo grupo Pietá não tive dúvidas de que a voz potente e agreste de Juliana Linhares merecia um álbum de DNA nordestino. Ao procurar o produtor Marcus Preto para a trabalhar em seu primeiro álbum solo, a cantora potiguar ouviu que seria interessante gravar compositores que dessem ao disco aqueles elementos que conhecemos em intérpretes como Elba Ramalho, Amelinha e Cátia de França.

“Mas à medida que a Juliana me mostrava suas composições, a ideia de um álbum autoral ganhou mais força. Aquelas canções se impuseram”, lembra Preto, ao falar de “Nordeste Ficção”, que acaba de ser lançado nas plataformas digitais. “Começamos logo a apurar a espinha dorsal da história que contaríamos, elucubrando os novos imaginários que poderíamos criar sobre o Nordeste e os nordestinos. Juliana materializou essa questão quando falou em um Nordeste onde fosse possível cantar forró sem o clichê da saia de chita e sandália de couro – e essa imagem está traduzida na foto da capa do álbum. Queríamos, sobretudo, construir um repertório que pudesse servir de ponte para as pessoas se reconectarem com uma voz popular, pelos ouvidos que escutam e pelo corpo que dança. E que fosse uma fonte de alegria”, completa o produtor.

Juliana começou a pensar na possibilidade de um álbum solo durante o período de uma semana em que ficou sem voz – o pesadelo maior de qualquer cantor – por conta de uma  laringotraqueíte. Telefonou para Posada, cantor e compositor de origem sueca, criado em Pernambuco e radicado no Rio, e dele recebeu três canções. Gostou de todas, mas uma delas era o estopim para o álbum. E a partir de “Bombinha” nascia a ideia de álbum. Segundo Juliana, seus versos retratam um sentimento muito comum entre os nordestinos que vão morar no Sudeste e passam a entender o significado de sucesso em outros termos. “Quem explode é bombinha/ Eu quero é cantar pros meus/ Deixe que eu mesma decido/ Que rainha sou eu”. Ou ainda: “E não quero ir pra Marte/ Quero ir pro Ceará/ Não vim aqui me exibir/ Eu vim aqui te buscar”.

Das 11 faixas faixas emerge um trabalho lírico, questionador a dançante. Juliana apresenta parcerias com Chico César (“Embrulho” e “Lambada da Lambida”) e Zeca Baleiro (“Meu Amor Afinal de Contas”), nomes emblemáticos da música nordestina dos anos 1990.

Juliana estava em Natal quando decidiu escrever ao compositor paraibano arriscando o convite de parceria. Ele topou. E ela travou. Passou um mês até enviar a primeira letra, mas a resposta de Chico veio em uma hora e meia. Era “Embrulho”, prontinha. No mesmo dia, passaram a noite no telefone. Chico fez um discurso emocionado, argumentando que é absolutamente necessário se manter alegre para resistir. Animada, ela dedicou o dia seguinte a escrever algo nesse clima para enviar ao parceiro. Mais uma hora e chegou a “Lambada da Lambida”. A letra retrata um amor entre mulheres, afeto que precisa ser naturalizado tanto na vida quanto na arte.

A dinâmica com Zeca Baleiro foi parecida. Assim que ele concordou com a parceria, Juliana foi buscar em seus escritos “algumas dores do tempo”, como definiu, e enviou a ele. Quando chegou a música pronta – com o inconfundível estilo do compositor maranhense – tornou-se obrigatória a voz de Zeca na gravação. Ele topou e “Meu Amor Afinal de Contas” também ganhou um ótimo clipe dirigido por Mariana Moraes.

Outro emblemático compositor nordestino comparece no álbum. É do tropicalista Tom Zé “Aburguesar”, uma letra inédita que andava esquecida numa antiga fita de rolo. “É provavelmente de 1972, e foi encontrada quando fizemos o ‘Vira Lata na Via Láctea’, álbum dele que eu produzi em 2014. Àquela altura, Tom Zé entendeu que os versos que tinha escrito estavam datados e optou por não usá-los. Mas o mundo deu voltas estranhas e nos trouxe para tempos tão ou mais nefastos do que aquele começo de anos 1970”, comenta Marcus Preto, que apresentou a canção a Juliana essa canção de carga amarga, cínica e política. Letícia Novaes – a Letrux – divide os vocais nesta faixa com produção musical do carioca Vovô Bebê (Pedro Carneiro).

Outra canção política, “Frivião” foi escrita por Juliana Linhares em parceria com irmão Rafael Barbosa. É um manifesto anti-Bolsonaro. Juliana compôs a melodia com arranjos de boca, rabiscou a letra e deu para o mano terminar. O arranjo remete ao carnaval e à vontade de rua gerada pela pandemia.

“Balanceiro” nasceu de um encontro pós-“Samba do Trabalhador”, a famosa roda carioca. Juliana, Sami Tarik e Khrystal foram para a casa de Moyseis Marques. Sentaram com o violão e o caderninho ao redor da mesa e começaram a tocar. Juliana foi anotando o que surgia. Todos saíram de lá realmente bêbados e, como é comum nesses casos, nem se lembraram da existência dessa composição. Mas Juliana encontrou o papel amarrotado em uma agenda. Ligou para Khrystal com a parte da melodia que ainda tinha na memória e fecharam a música que ganhou participação de Mestrinho na sanfona.

Caio Riscado é coautor de “Armadilha”. Performer e professor universitário, ele já dirigiu shows do Pietá e do Iara Ira, projeto musical de Juliana com as cantoras Juliana Vargas e Duda Brack. Desde que Juliana contou do desejo de fazer um trabalho solo, Caio passou a enviar ideias. Fizeram “Armadilha” inspirados pelo “Grande Encontro” de Alceu, Elba, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho.

Nordeste Ficção” traz duas regravações. “Tareco e Mariola” é um hino no Nordeste, um forró clássico de Petrúcio Amorim consagrado na voz de Flávio José. Quando foi morar no Rio, Juliana percebeu que ninguém conhecia a canção. Começou a cantar nas apresentações do Pietá e viu que ela causava comoção. A outra regravação, “Bolero de Isabel”, foi escrita por Jessier Quirino e já conta com uma linda versão de Xangai. Quando adolescente, Juliana mergulhou na obra de Quirino a partir de uma montagem, na escola, de espetáculo teatral de autoria do poeta paraibano. Logo que se mudou para o Rio, costumava cantar “Bolero de Isabel” acompanhada do violonista Rodrigo Garcia. Chegaram a fazer uma gravação caseira da canção e enviaram ao pai de Juliana, fã da composição. Pois a gravaçãozinha rodou de whatsapp em whatsapp até chegar no próprio Jessier, que procurou Juliana e enviou uma mensagem poética agradecendo. Rodrigo Garcia toca viola caipira e violão barítono na nova versão da música.

Juliana Linhares preocupa-se com os clichês associados ao Nordeste e sua gente - Fotos: Clarisse Lissovski
Juliana Linhares preocupa-se com os clichês associados ao Nordeste e sua gente – Fotos: Clarisse Lissovski

“Nordeste Ficção”, conta Juliana, tem como ponto de partida um questionamento sobre o que significa ser nordestino nos dias de hoje, reflexão aprofunda pela artista durante a leitura de “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Ela ficou instigada pelo livro, foi assistir à adaptação teatral feita pelo grupo Carmin e procurou o próprio Durval para conversar. A troca de ideias com o autor resultou na canção que batizaria o álbum. “Foi a música mais difícil de ser elaborada. Começou com a brincadeira de se imaginar olhando no espelho e vendo um cacto no reflexo. O mote inicial foi a lembrança dos mini-cactos onipresentes mesmo em apartamentos do Sudeste: aquela planta que ninguém rega, ninguém cuida, mas que segue firme na força de seus espinhos. A partir dessa metáfora, Juliana escreveu a primeira parte da canção. Questionamentos dos estereótipos colados ao Nordeste deram a tônica da segunda parte. Rafael Barbosa, fechou com ela a canção.

Entre xotes, baiões, valsas e até lambada, Juliana mostra a força dessas raízes dessses cactos sejam eles os pequeninos de apartamentos ou os nativos do vasto sertão. Sabemos que 2021 nem chegou à sua metade, mas “Nordeste Ficção” já garantiu, para mim, seu lugar entre os melhores álbuns do ano. A produção musical e os arranjos têm a assinatura de Elísio Freitas, um jovem instrumentista cada vez mais requisitado e que brilhou na transposição dos conceitos do álbum para sua materialização sonora, a construção de paisagens. E com seu timbre peculiar, a voz de Juliana Linhares é mais do que arretada. é arrebatadora! Confiram o trabalho completo:

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