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Julie London, madrinha da Bossa Nova?

Em algum lugar da Zona Sul dos anos 1950, alguns rapazes e moças devoravam álbuns de jazz, entre os quais “Julie is her name”, álbum de estreia da cantora Julie London em parceria o guitarrista Barney Kessel, que fazia uma leitura cool de standards americanos como “S’ wonderful” (George e Ira Gerswhin), “Cry me a river” (Arthur Hamilton) e “Say isn’t so” (Irving Berlin), entre outros clássicos. À voz cool da cantora, somava-se a moderna guitarra semi-acústica de Barney Kessel. Jovens músicos como Roberto Menescal, Carlos Lyra e Oscar Castro Neves revezavam-se na missão de tirar aqueles acordes simples mas carregados de significados. O álbum é de 1955 e, três anos depois, nascia a Bossa Nova e muitos dos representantes desta geração atribuem a cantora e ao músico
americano a paternidade da batida, sua raiz harmônica. A cantora Cris Delanno foi apresentada ao álbum por Menescal, seu guru e incentivador, quando tinha 18 anos. Trinta anos depois, o álbum ganha uma regravação em ritmo de Bossa, fechando um ciclo virtuoso, pois se a batida brasileira nasceu sob a influência do jazz, nada como reapresentar um trabalho seminal como “Her name is Julie” na linguagem musical que ganhou o mundo e projetou a música brasileira que, aliás, acabou influenciando o próprio jazz.

“Eu era uma menina quando o Menescal me mostrou esse álbum. Dessa paixão, surgiu a ideia de regravá-lo, mas com arranjos brasileiros, como uma forma musical de agradecimento a Julie e Barney, que tanto influenciaram a música brasileira no período pré-Bossa”, explica a cantora, que convocou o guitarrista Nelson Faria para gravar, ser o que chama “o nosso Barney”. “Nelson é um grande músico, de raro talento e sensibilidade”, derrama-se em elogios ao parceiro.

Álbum de um take só

Produzido, gravado e mixado por Alex Moreira, marido e parceiro musical de Cris, o álbum foi gravado “do jeito que se fazia antigamente”, ou seja, um take inteiro sem emendas. O duo ganhou a participação do multi-intrumentista Guto Wirtti no contrabaixo. E o mestre Menescal aprovou o álbum com louvor. “Julie is her name’ é, certamente, um dos dez álbuns preferidos entre todos que escutei na minha vida. Ouça o álbum completo aqui:

Neste trabalho da Cris, não há como não destacar a qualidade da produção e gravação. A voz dela está de uma clareza fantástica, assim como a guitarra desse meu mestre Nelson e o baixo do Guto”, elogia o produtor.
Hoje com 40 anos, Cris Delanno transborda gratidão ao mentor Menescal. “Ele é o elo de todas as amizades que conquistei na música”, devolve a cantora, cuja relação com a Bossa Nova se revela não como uma escolha, mas uma missão que lhe foi confiada. “Acho que foi ela que me escolheu”, resume.

Filha de brasileiros nascida no Texas – os pais estavam nos Estados Unidos em período de trabalhos e estudos -, Cris voltou ao Brasil praticamente bebê, aos 2 anos. Aos 5, já integrava o coro infantil do Teatro Municipal. Mais que
nunca, sentia a necessidade de cantar. Integrou grupos vocais, inclusive foi a única branca de um coro gospel de negros na Flórida num breve período de retorno aos Estados Unidos. “Foi uma experiência incrível, mas acho que não consigo ficar lá mais do que dois anos”, diverte-se Cris, que já foi professora de canto e backing vocal
de grandes nomes da MPB.

Professora e aluna

Constantemente comprometida com o aprendizado musical, Cris Delanno é, ao mesmo tempo, professora e aluna. Além de lecionar canto e atuar na preparação vocal de atores e outros cantores para os mais variados espetáculos, acaba de concluir o mestrado em arranjo musical pela UniRio. “Eu já dividia alguns arranjos com o Alex (Moreira) em trabalhos anteriores, mas é sempre importante aprimorar a técnica”, conta, antecipando que colocará seus novos conhecimentos em prática no álbum que pretende gravar com o marido já no início do próximo ano.  Enquanto aprende de um lado, ensina de outro. Há um ano, coordena o coral Diversus – grupo formado por cantores iniciantes que se reúne regularmente na Sala Baden Powell, em Copacabana. “Quando o João Donato (o gestor da casa) me convidou para o projeto, coloquei como condição para aceitar a liberdade para fazer um trabalho de inclusão. Não tenho o interesse de criar o melhor coral do mundo, mas sim um grupo coeso em que todos participem”, explica a artista, também autora de um livro sobre técnica vocal chamado “Mais que nunca é preciso cantar”. Na obra, ela apresenta exercícios práticos de emissão, ressonância que ajudam cantores profissionais e amadores a trabalhar melhor as cordas vocais. A cantora dedicou-se recentemente a preparar a atriz Andrea Beltrão, que protagonizará um filme sobre Hebe Camargo.

Backing vocal de Simonal e de Emílio Santiago

Antes de se destacar como solista, Cris Delanno acumulou experiência como backing vocal. Acompanhou Wilson Simonal e também Emílio Santiago, num de seus trabalhos mais expressivos, os sete CDs da série “Aquarela brasileira”. Foi justamente nessa época em que conheceu Menescal e o futuro marido. Menescal assumiu a produção de seu primeiro álbum, “Cris em Tom maior”, de 2000. “Ele reuniu músicos maravilhosos em torno do projeto. Alguns estavam, assim como eu, gravando pela primeira vez. Ele tem esse dom”, revela.

Com Alex Moreira, participa até hoje do Bossacucanova, um inventivo trabalho que mescla a Bossa Nova em ritmo lounge, num contraponto aos que se faz com um banquinho e um violão. “Se já me apresentei nos cinco continentes representando o nosso país, a nossa cultura e a nossa música, devo ao Bossacucanova”, destaca, elegendo como o momento mais marcante dessa trajetória a participação do grupo no show de encerramento da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

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