MPB

Lúcia Menezes e aquela vontade de cantar na rua

Lúcia Menezes

No jargão musical os cantores ganharam faz tempo o apelido de canários. Uma alcunha, aliás, um tanto maledicente com que os músicos definiam o tamanho do ego daqueles que ficavam com o microfone em punho. Mas nem todo cantor é movido pela vaidade de querer estar acima do espetáculo e até mesmo das canções que interpreta porque na música a canção sempre estará em primeiro lugar. Radicada no Rio, a cearense Lúcia Menezes é uma voz que podemos situar, sem dúvida, estando a serviço da canção. E quando percebemos que isso acontece? Quando as notas musicais se soltam muito além do aparelho respiratório do cantor, extrapolando da caixa toráxica para pontos intangíveis da sensibilidade.

Capa do álbum 'Até que Algupem me Faça Coro pra Cantar na Rua - Fotos: Leo Aversa
Capa do álbum ‘Até que Alguém me Faça Coro pra Cantar na Rua – Fotos: Leo Aversa

Lúcia nos apresenta o álbum “Até que Alguém me Faça Coro pra Cantar na Rua”, que define bem sua relação com o belo cancioneiro do Brasil. Com produção de José Milton e arranjos e regências de Cristovão Bastos e João Lyra, o repertório é uma deliciosa viagem pelo espaço e pelo tempo passado e presente da música brasileira. O simples fato de convidar Cristóvão para assinar arranjos já é prova de que a artista procura imprimir a beleza em seu trabalho.

Ao longo de suas 13 canções, quatro inéditas, percebe-se uma prevalência do belo, do sensível, mercadoria cara em dias de incerteza como os que vivemos. Lúcia Menezes trabalha sambas, choros, baiões, xotes, cirandas, ranchos, toadas – ritmos dos quatro cantos do Brasil, de muitos Brasis – com zelo e graça. Os arranjos, delicados como punhos de renda, completam o quadro. É uma trabalho sensível, feito para despertar o que temos de melhor em nós mesmos, a capacidade de reconhecer e apreciar o que é belo, exercer o amor.

O repertório é dominado por músicas de um passado com o qual não podemos perder a conexão, tais como “Rancho das Borboletas”, de Miguel Rabello e do impecável letrista Paulo Cesar Pinheiro, que trasborda singeleza em versos como “Elas são de seda e de cetim / A despontar dos casulos de marfim / Misturadas à cor das violetas / As borboletas / Enfeitam o jardim, / Brilham como a luz, / Umas pretas e azuis, / Outras cor de lilás, carmim, / Elas desfilam ao raiar da aurora, / Quando a lua vai-se embora / E o sol já começa a tocar seu clarim”. Confira essa doce marcha-rancho em lyric video:

E segue disco adentro com pérolas como “E Bateu-se a Chapa”, samba de Assis Valente com que Carmen Miranda começou a maior fase de sua carreira, na Odeon, em 1935, e se estende ao “Tico-Tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu, com a letra quebra-língua que Aloysio de Oliveira escreveu para a mesma Carmen em 1944. Lúcia Menezes pinçou também de sua memória afetivo-musical canções de Chico Buarque (“Um Chorinho”); Nonato Luiz e Abel Silva (“Aquele Olhar”); Adriana Calcanhotto (“Você Disse Não Lembrar”); e Moraes Moreira e Patinhas (“Pra Incendiar seu Coração”).

Completam o feliz repertório as inéditas “Quando a Égua Esfrega o Bode?” e “Caatinga Seca”, de Eduardo de Menezes Macedo, um de seus filhos músicos; “Samambaia Trepadeira”, de Gervásio Horta; “Forró do beliscão”, de Ary Monteiro, João do Vale e Leôncio. Três  recortes precisos da vida no Nordeste, com um jeitão de conto e crônica em formato de música. Cristóvão Bastos e Roberto Didio assinam ainda “Lua de Esperar”, que nasce com gosto de clássico, e João Lyra e Zeh Rocha compuseram a doce “Ciranda do Beijo Roubado”. Ouça o álbum completo aqui:

É de se perguntar de onde surgiu esse título para o álbum. “Até que Alguém me Faça Coro pra Cantar na Rua”. Saiu da letra de “Um chorinho”, da lavra de Chico Buarque e já comentada acima. É de 1967, do álbum “Chico Buarque Vol. 2”, aquele de “Noite dos Mascarados”, “Com Açúcar, com Afeto”, “Quem Te Viu, Quem Te Vê” e “Morena dos Olhos D’Água”, todas de uma fase muito lírica do compositor. E esta imagem de cantar na rua, em coro, numa doce aglomeração do bem, é mais do que desejada nos dias de hoje. No dramático 2020, Lúcia amenizou a solidão e o medo de muitos cariocas ao fazer lives diárias da janela de seu apartamento no Alto Leblon nos piores meses da pandemia. E, em todas essas vezes sonhava com o dia em que alguém lhe fizesse “coro pra cantar na rua”. Lúcia não sonhou sozinha e esse coro um dia chega.

Leia a resenha que nosso colaborador Aquiles Rique Reis, o Aquiles do MPB4, fez deste álbum:

Lúcia Menezes e um álbum incomum

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