MPB

Maria Bethânia entre a fé e a folia

Maria Bethãnia

O universo místico baiano – marcado pelo sincretismo entre o catolicismo, o candomblé e a herança indígena – é uma influência viva na cultura e costumes de um Brasil plural, mestiço e democrático. Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo, de onde vieram os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia. A região foi o lugar no Brasil que mais recebeu negros escravizados trazidos da África. A Bahia soube misturar todas essas tradições, transformando-as em expressões originais brasileiras em relação à música, religião e festas populares. A religiosidade da cantora, que nasceu católica, devota da Virgem Maria, e se descobriu filha de Iansã é retratada no documentário “Fevereiros”, de Marcio Debellian, que estreia hoje nos cinemas.

O diretor acompanhou Bethânia do Rio de Janeiro, com o vitorioso desfile da Mangueira em homenagem à cantora, até a sua cidade natal. O longa rodou 30 festivais de cinema pelo mundo, desde a primeira exibição no Festival do Rio de 2017, passando por países como Canadá, França, Rússia, Suíça, Espanha, Itália, Chile, Uruguai, Congo e Senegal. Foi premiado como melhor filme no 10º In-Edit Brasil e recebeu menção honrosa do júri na competitiva Ibero-americana do 36º Festival Internacional do Uruguai.

A cantora baiana, que é devota da Virgem Maria e descobriu ser filha de Iansã, em cena do filme de Marcio Debellian que entra hoje em circuito Foto: Divulgação
A cantora baiana, que é devota da Virgem Maria e descobriu ser filha de Iansã, em cena do filme de Marcio Debellian que entra hoje em circuito Foto: Divulgação

“No início, havia uma tendência a se fazer uma leitura do carnaval, uma coisa mais plástica, e agora está mais contundente. Fiz o filme em 2016 e finalizei no ano seguinte. Havia uma preocupação de que estava demorando muito a ser lançado,  mas o Brasil andou tanto para trás que o trabalho ficou mais contemporâneo. Parecia haver umas questões nossas asseguradas em relação a respeitos e tolerância e isso, de uma hora para outra, está em risco. O filme vem num momento bom para se olhar para esse Brasil onde fé e festa convivem bem”, comenta Debellian.

O longa acompanhou a construção do carnaval campeão da Mangueira em 2016 – desde os desenhos das primeiras alegorias aos desfiles na avenida. “O que me interessou desde o início, independente do resultado que o carnaval viria a ter, foi o recorte que a Mangueira escolheu para o enredo. Entre as inúmeras possibilidades de se homenagear Maria Bethânia, a escola escolheu tratar da sua devoção religiosa, do seu sincretismo pessoal”, lembra o diretor. “O título da Mangueira serviu para coroar a história. Um final feliz que acabou anexado”, completa.

Com depoimentos dos irmãos Caetano e Mabel, Pai Pote e Pai Gilson, Debellian recria o ambiente familiar do clã Velloso, a religiosidade das festas realizadas em fevereiro em Santo Amaro, sobretudo a lavagem da Igreja da Matriz por descendentes de escravos libertos e quem tem na casa de Dona Canô – a matriarca da família – um ponto de concentração há vários anos. maria Bethânia interrompe qualquer coisa em sua vida pessoal e profissional para passar esses dias na terra natal. “Lá, ela é a menina dos olhos de Oyá (Iansã), a menina que vai na casa da amiga de infância e ao mercado, tem uma naturalidade para ela ali”.

O documentário registra os momentos singelos da religiosidade da artista, como nas cenas em que está na igreja adornando uma imagem de Santa Bárbara – que é Iansã no sincretismo entre as duas crenças. “Tive uma preocupação de não ser invasivo. Eram momentos muito especiais para ela, como na diversão durante o carnaval ou diante da santa, mais concentrada, seu momento de fé. Queria que ela fosse viver plenamente e se esquecesse de que havia uma câmera. Ela não tinha um compromisso de atuar no filme, simplesmente estava vivendo a vida dela e me permitiu acompanhar isso, sabendo, claro, que eu respeitaria seu espaço”.

Em depoimento ao cineasta, a cantora recorda sua trajetória como anjo que participava dos festejos da Virgem Maria e, anos mais tarde, sua iniciação no candomblé, por influência de Mãe Menininha do Gantois, que sugeriu que ela e Caetano teriam que ser iniciados juntos. “Nesse núcleo familiar, temos o Caetano que é ateu, a Bethânia é devota do candomblé e de Nossa Senhora, a Mabel é católica, mas vai nos rituais do candomblé de rua, e tudo convive bem. O Caetano foi iniciado junto a Bethânia por amor. Todas essas coisas trazem valores muito caros, no cerne do que é uma família. Quando vemos esse conceito das famílias serem reguladas por um ministério, isso me dá pavor”, protesta, numa crítica à criação de um Ministério da Família.

Convivência e tolerância naturais

Maria Bethânia, em cena do documentário "Fevereiros", que aborda a religiosidade da cantora - Foto: Divulgação
Maria Bethânia, em cena do documentário “Fevereiros”, que aborda a religiosidade da cantora – Foto: Divulgação

“Santo Amaro tem essa convivência e tolerância, algo muito natural para eles. A região era muito propícia para isso. Tudo ali se misturou de uma maneira que você não precisa despir um santo para louvar outro. Nenhuma fé se sobrepõe à outra ali, elas convivem bem. Então você vai pra lavagem, que é a limpeza de uma igreja com a água preparada nos terreiros de candomblé. Você vai comemorar o 13 de maio num ritual de candomblé de rua, mas toda a população branca acompanha. No Recôncavo, há uma sabedoria que está fazendo falta ao Brasil nesse momento”, analisa.

Sabedoria que o clã Velloso demonstra de sobra. “Eles têm essa coisa do matriarcado baiano, aquela casa de portas abertas. Isso é muito bonito, porque nota-se a mesma coisa nos primórdios do samba no Rio de Janeiro, com as casas das tias baianas abertas, com rituais, música, danças e mesa farta”, compara o diretor.

Debellian demonstra gratidão pelo filme vir a ser exibido em mídias como o Canal Brasil, Globonews e Now, mas lembra que foi realizado para ser assistido no cinema, com muitos detalhes, como num desfile de carnaval. “Não que não funcione na TV ou na internet, mas quero privilegiar essa janela”, explica.

Leia mais em:

Maria Bethânia e juras de amor em tons de verde e rosa

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *