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Maria Bethânia entrega beleza e encantamento

Maria Bethânia
Capa do álbum 'Noturno', de Maria Bethânia
Capa do álbum ‘Noturno’, de Maria Bethânia

A capa é branca, traz um título e uma assinatura. Assim se apresenta, à primeira vista, o mais novo trabalho de Maria Bethânia. O lançamento de álbuns da cantora baiana não deve ser precedido de muitas expectativas, ou melhor, apenas de uma: até que ponto Maria Bethânia pode beirar a perfeição com suas interpretações?

Lançado e distribuído pela Biscoito Fino nos formatos físico e digital, o disco traz 12 canções inéditas, com direção e arranjos do maestro baiano Letieres Leite e produção musical de Jorge Helder, o exímio contrabaixista que há anos escolta Bethânia nos palcos.

A cantora já antecipara parte do álbum com duas pílulas de deleite: os singles “A Flor Encarnada”, canção de Adriana Calcanhotto, em que a voz da Abelha Rainha se faz acompar pelo piano de Zé Manoel; e “Lapa Santa”, parceria de Paulo Dafilin com Roque Ferreira, mesmos autores de “Casa de Caboclo” que Bethânia gravou em “Meus Quintais” (2014).

A compositora Adriana Calcanhotto bate ponto em outra faixa de sua autoria: a dilacerante “Dois de Junho”, que narra cinematograficamente a morte do menino Miguel que tombou de um edifício em Recife, uma tragédia que chocou o país. Junto aos versos secos, Bethânia se entrega ao ofício de cantar e contar nossas dores e preconceitos, ladeada por um arranjo forte e uma guitarra de Pedro Sá.

Maria Bethânia - Fotos: Jorge Bispo
Maria Bethânia – Fotos: Jorge Bispo

O disco abre com “Bar da Noite”, peça delicada que Bethânia pinçou da caixinha de joias de Nora Ney que resgata o clima noturno dos bares, boates e restaurantes onde amores a começam e também terminam ( (“Quantos estão pelas mesas / Bebendo tristezas / Querendo ocultar / O que se afoga no copo / Renasce na alma / Desponta no olhar”).

A irmã de Caetano Veloso grava pela primeira vez uma canção do sobrinho Zeca: “O Sopro do Fole”, uma ode nordestina, um lamento de exilado.

Bethânia desfila ainda sua versatilidade interpretativa e viaja por sonoridades distintas. “Vidalita”, de Mayte Martín, é uma canção flamenca; “Prudência” é um bolero de Tim Bernardes, festejado compositor da nova cena musical paulista; e na singela “Cria da Comunidade”, Bethânia divide a gravação com o sambista Xande de Pilares, autor da canção em parceria com Serginho Meriti. Um samba gostoso de se ouvir, que trata de gente simples, que é Brasil na veia.

A verve poética da cantora se faz presente no enecerramento de “Noturno”, como na calada noite, com a leitura de fragmentos do poema “Uma Pequenina Luz”, de Jorge de Sena – um dos grandes poetas portugueses do século passado (“Uma pequena luz, que vacila exacta / Que bruxuleia firme, que não ilumina, apenas brilha / Chamaram-lhe voz ouviram-na, e é muda / Muda como a exactidão, como a firmeza, como a justiça / Brilhando indeflectível / Silenciosa não crepita / Não consome não custa dinheiro / Não é ela que custa dinheiro / Não aquece também os que de frio se juntam / Não ilumina também os rostos que se curvam / Apenas brilha, bruxuleia ondeia/ Indefectível, próxima dourada”).

“Noturno” é um álbum de beleza e encantamento que é preciso ser ouvido e absorvido pelo ouvinte da mesma forma que Bethânia absorve e toma para si as canções que decide gravar: com calma, serenidade e plenitude. Ouçam. E muito.

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