Jazz

Miles Davis – 95 anos (ou não)

Miles Davis

Por Paulo Roberto Andel

Miles Davis fez ou faria 95 anos nesta quarta-feira. Nunca se sabe. É impossível não pensar no trompetista como um dos maiores artistas do século XX em qualquer área de atuação. A Miles coube liderar a vanguarda do jazz durante décadas, desde o fim dos anos 1940, quando se afirmou como líder, até sua morte em 1991. Não houve uma novidade no gênero musical que ele não estivesse à frente durante aquele período de mais de quatro décadas.

Se estivesse vivo, o que teria feito nos últimos 30 anos?

Impregnado desde sempre por inovações e desafios artísticos, é possível que Miles Davis tivesse ido cada vez mais fundo na direção do hip hop e da cultura negra em geral, talvez até mergulhando na música tradicional dos continentes africano e asiático. Enfim, são apenas divagações divertidas, mas que poderiam caber na criatividade do jazzman.

Ainda é impressionante olhar para trás e pensar na trajetória artística que Miles traçou com seu talento gigantesco. Inicialmente não considerado um virtuose do trompete, ele não somente se afirmou com um som único, mas liderou movimentos inteiros dentro do jazz, expandindo-o para muito além das suas fronteiras habituais das pequenas casas, chegando aos palcos de grandes festivais de rock.

Nem sempre foi fácil. Miles levou pedra e não foi pouca, mas ele sempre foi duro na queda. Quando inaugurou o jazz-rock, encarou os narizes da crítica torcidos para si e, pior ainda, foi quando resolveu apostar na mistura de soul e jazz no álbum “On The Corner”, hoje consagrado mas muito criticado à época. Não é novidade que a crítica musical muitas vezes não perceba a genialidade de uma nova tendência para se arrepender mais tarde.

Miles Davis e Hermeto: pesos pesados no ringue - Foto: Reprodução
Miles Davis e Hermeto: pesos pesados no ringue – Foto: Reprodução

Aprontou poucas e boas por aí, mas ao mesmo tempo tinha a generosidade que só os gigantes possuem. Jovem mas já consagrado, ele cansou de revelar e consolidar músicos e músicos que depois marcaram época pelo mundo inteiro, numa linhagem que veio de John Coltrane até outras feras que estão aí até hoje, como nos casos de Herbie Hancock e Wayne Shorter, ambos revelados numa das várias formações que acompanharam Miles Davis em sua carreira, assim como um dia ele mesmo ele acompanhou Dizzy Gillespie e Charlie Parker.

Há uma lista interminável de craques que passaram pela banda de Miles Davis: John McLaughlin, John Scofield, Chick Corea, Marcus Miller e tantos outros.

Um deles é 100% brasileiro, o bruxo Hermeto Pascoal que, ao acabar de conhecer Miles Davis pessoalmente, foi intimado a subir no ringue que o trompetista tinha em casa. Daquela vez o gênio do jazz teve uma péssima ideia: Hermeto saltou as cordas, apontou e nocauteou Miles com um poderoso socão. Nunca é tarde para se aprender uma lição, até mesmo quando se é Miles Davis – afinal, não se mexe com um cabra à toa.

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