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Monica Salmaso, 50 anos – Todos os caminhos a levam ao Brasil

Mônica Salmaso

Por Hugo Sukman
Especial para Na Caixa de CD

Mônica Salmaso faz 50 anos e me toco que somos da mesma, da mesmíssima geração, sou mais velho que ela alguns meses. Ela é portanto a cantora da minha geração, aquela que ouviu Tom e Chico na infância – e ela me disse uma vez que gravaria todas as músicas da trilha do “Para viver um grande amor”, coisa que vem religiosamente fazendo – e que se transformou quando Aldir começou a (d)escrever a música de Guinga. (Outro dia ouvi ela fazer com o Guinga o “Esconjuro”, a segunda composta pela dupla, e versos como “Falei alarido, palavra de vidro, quebrada na voz”, foi como um vaso de cristal que quebrou dentro de mim ao lembrar também do verso final, “a moda sertaneja na viola carioca/traz o Brasil de volta pra canção”, sobre como talvez nossa geração veja e ame a música e o Brasil).
Já tive a honra até de dirigi-la, no palco do Municipal e do Ibirapuera no show dos 70 anos de Edu Lobo, como na TV, na série “Hoje é dia de música”, da HBO, e constatei o que já sabia, do amor infinito dela pela música e pelo Brasil.
Como repórter e critico já escrevi tanto sobre esse amor, essa música e esse país.
Quando da gênese de “Iaiá”: “De carro, Mônica Salmaso saiu imediatamente assim que recebeu o telefonema de um amigo dizendo que conseguira um vídeo com horas de Clementina de Jesus cantando. De avião, ela deixou São Paulo rumo ao Rio para conhecer um samba e gravar com mestres contemporâneos do gênero. De metrô foi até Oswaldo Cruz conhecer Jair do Cavaquinho e, humildemente, gravar vocais em seu disco, logo ali adiante num estúdio em Acari. A bordo da pura imaginação musical pegou, por exemplo, um velho samba de breque do repertório de Moreira da Silva, “Cidade lagoa”, e recriou-o acompanhada de moderníssimo quinteto de sopros paulista, Sujeito a guincho. Ou um raro Chico Buarque, “Sinhazinha”, acompanhada do piano atonal de André Mehmari. Não importa o meio de transporte nem onde exatamente ele vai dar, todos os caminhos a levam ao Brasil.
Mas remexendo os alfarrábios, lendo o tanto que escrevi e pensando ainda no Brasil e na nossa geração, quebrou-se novamente um cristal aqui dentro quando vi um escrito de 2014 – portanto, já depois de as portas do inferno terem sido abertas em 2013 – sobre o disco “Corpo de Baile”, visão de Mônica da obra de Guinga e Paulo César Pinheiro, tão bela e enigmática como a obra com Aldir. E o arrepio se dá pela confirmação do papel de Mônica na música brasileira – como uma Elizeth contemporânea, no sentido de balizar, de decantar o repertório, para além da excelência técnica – mas também da ideia de que vivemos um “Fim dos tempos”, como na canção: “Nós somos todos/Todos aflitos/De um lado os doidos/De outro os malditos/Com o fim dos tempos, no coração/E pelos becos, pelas ruas/Pelo mundo andamos sós”.

Sobre Mônica, dizia, e reafirmo: “Como uma Elizeth Cardoso em Canção do amor demais, que com Tom e Vinicius relançou a música brasileira para o futuro, Mônica Salmaso acha Guinga e Paulo César Pinheiro em pleno fim dos tempos”.

 

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