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Onde estaria Renato Russo nos dias de hoje?

É difícil prever exatamente o que  Renato Russo estaria fazendo se pudesse comemorar seus 60 anos semana passada. Quem sabe uma live impactante em tempos de quarentena? Ou um merecido protesto contra o desgoverno do país, que mudou em muitas coisas e permaneceu mais do mesmo em outras? Tudo seria possível, com certeza de qualidade e contundência.

Renato Russo
Renato Russo, trovador e porta-voz de uma geração inteira

Morto em 1996, o trovador solitário não teve tempo de experimentar a era da internet. Isso não o impediu de ser extremamente popular mesmo depois da morte. Por muitos e muitos anos sua banda, a Legião Urbana, foi uma das maiores vendedoras de discos de sua gravadora (EMI) nos países de língua não inglesa. É difícil não ter alguma festa com violão, convescote de faculdade ou semelhante que não tenha os versos rascantes de álbuns gravados há mais de 25 ou 30 anos, todos eles cantados por uma das mais vigorosas vozes do rock brasileiro.

A Legião Urbana é um fenômeno de público e crítica desde o seu começo, planejado nos mínimos detalhes por Renato Russo. Ele era perfeitamente consciente de seu talento e, mesmo com músicos considerados limitados à época, virou o Brasil da redemocratização de cabeça para baixo. Três décadas e meia depois, seus companheiros Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá continuam a encher teatros, levando um pedaço do que foi a mais popular banda do rock brasileiro. Pedaço porque, sem Renato, sempre faltará muita coisa no palco.

O som da Legião é claramente inspirado no punk rock e em bandas inglesas oitentistas, misturadas à curiosidade e conhecimento colossais de Renato sobre poesia e artes. De Gang of Four a Smiths, é possível identificar as semelhanças da LU com os pontas de lança da contestação da terra da Rainha. Nas letras, além da poesia livre e muitas vezes sem rimas – um desafio em se tratando de música popular – Renato inseriu inúmeras referências em versos e títulos de canções, tais como Shakespeare (A tempestade), Thomas Mann (A montanha mágica), Vivaldi (As quatro estações), o Antigo Testamento (Daniel na cova dos leões) e Monte Castelo (Coríntios 13/Camões) e outras.

Confira abaixo Renato Russo e a Legião numa de suas memoráveis apresentações ao vivo, em 1994. A contemporaneidade é absurda:

Deixando de lado os puristas que desprezam as letras de música como expressões poéticas (é certo que há diferenças entre letras e poemas, mas muitas vezes os caminhos se abracem), é certo que Renato Russo foi um poeta completo. Tinha a música como suporte para seus versos, mas se não tivesse se embrenhado pelo caminho da música, dificilmente não ouviríamos falar dele pelos livros e cadernos de cultura. Especialmente na fase final da Legião, nos discos “A tempestade” e “Uma outra estação” (planejados originalmente para serem um álbum duplo, mas depois realizados separadamente), há letras que soam como poemas demolidores quando cantadas, como “Clarisse” e “Primeiro de julho” (vigorosa interpretação final de Renato, tendo sido gravada anteriormente com sucesso por Cássia Eller). Mas antes do fim, a Legião Urbana já tinha deixado um legado exemplar, familiar a cinquentões, trintões e pós-adolescentes. E o cantor, ao lado de Cazuza, soube escrever e cantar como poucos as angústias dos jovens, tanto naquele tempo quanto agora – e aqui mora uma das razões de sua popularidade permanente.

Quem seria o Renato Russo aos 60 anos? Fiquemos com seus versos apaixonados de “Sete cidades”, faixa do álbum “As quatro estações”: “Quando não estás aqui/meu espírito se perde/voa longe”. Até hoje os fãs decolam incessantemente em busca de uma voz incomparável que os ganhou e os cativa, perto de qualquer fogueira jovem onde haja um violão tocando.

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