Os Saltimbancos é coisa pré-Libelu

Os Saltimbancos
Por Maninho Pacheco*
Especial para o Na Caixa de CD
Tudo já se disse sobre “Os Saltimbancos”. Pouco tenho a acrescentar que não seja remontar as origens daquele inocente e delicado musical infantil montado em 1976 em um país que contava seus presos, desaparecidos, mortos e torturados. De inocente, entretanto, em “Os Saltimbancos’ não havia nada. O musical é uma versão de Chico Buarque para o original italiano “I Musicanti”, peça inspirada no conto “Os Músicos de Bremen”, dos irmãos Grimm. As letras das canções são do italiano Sergio Bardotti e a melodia, de Luis Enríquez Bacalov. Coube a Chico fazer a versão das letras. E as fez com sua excelência e genialidade. Transposto para o Brasil sob a tutela militar, “Os Saltimbancos” se firma como uma alegoria antiautoritária orwelliana. Nela, os animais tomam consciência de sua condição explorada e partem para a revolução possível: a fuga da fazenda. E é nesse transcurso que se constrói a narrativa.
“História de Uma Gata”, que nos é brindada pelo vídeo abaixo, é um hino libertário, uma espécie de “A Internacional” do lumpesinato animal. Na montagem original d’Os Santimbancos, na casa de espetáculos Canecão, no bairro de Botafogo, no Rio, a Gata, interpretada por Miúcha, era originalmente vivida por Marieta Severo (no disco, no ano seguinte, 1977, a Gata foi cantada por Nara Leão) – a personagem de Miúcha na peça encenada no Canecão era a Galinha. Magro e Ruy, do MPB4, faziam o Jumento e o Cachorro, respectivamente. O Naquela montagem, os cenários e figurinos (assinados pelo artista plástico Maurício Sette) destacavam gigantescos bonecos que representavam os patrões dos bichos e que foram criados justamente nesta proporção para que as crianças pudessem mensurar o poder dos homens em relação aos animais.
No vídeo, o grande barato do coro infantil reside justamente nas criancinhas que dali se projetariam. Temos uma espevitada Bebel Gilberto (filha de João Gilberto e Miúcha) ao lado das contidas Isabel Diegues (filha de Nara Leão) e Silvinha Buarque (filha de Chico e Marieta), além de Alexandra Marzo (filha de Cláudio Marzo e Vanusa), Alice Borges (filha de Antonio Pedro, diretor da peça) e um tal de Cazuza, escarafunchado por tinta guache. Confiram:

“Os Saltimbancos” passou (a peça) incólume pela ditadura. A milicada de plantão e os órgãos de censura não tinham a percepção cognitiva do horizonte permitido pela sutileza de narrativas do texto criativo e sequer consideraram a montagem teatral de Chico passível de análise segundo seus vórtices culturais. E, no entanto, “Os Saltimbancos” foi um grito poderoso de abaixo a ditadura que só seria vocalizado explicitamente em praças públicas pela garotada insurgente da Libelu. Mas isso é uma outra história e há um documentário que trata ampla e maravilhosamente bem desse movimento porreta (“Libelu – Abaixo a Ditadura”, de Diógenes Muniz). Ouçam o álbum completo aqui:

*ao meu querido amigo Libelu-raiz, Alexandre Caetano, e minha vizinha Andrea, entusiasta do “nós gatos”

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