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Paulão Sete Cordas e seus sambas de afeto eterno

Em condições normais de temperatura e pressão, o violonista Paulão Sete Cordas trabalha incessantemente. Um dos instrumentistas, arranjadores e produtores mais solicitados na cena de samba e choro, o artista teve alguns trabalhos interrompidos pela pandemia. Seus dias em Itaipuaçu, na região oceânica de Niterói, têm sido preenchidos com rotinas domésticas, algumas caminhadas na praia e muito estudo de técnicas do instrumento que domina. De lives participou de poucas, entre elas das concorridas madrugadas comandadas pela cantora Teresa Cristina e da live de Zeca Pagodinho, de quem é músico e assina a direção musical dos espetáculos há 35 anos. Essa história muda agora com uma live só sua: “O Samba Nosso de Cada Dia”.

Semanalmente, às 21h30, em seu canal no YouTube, Paulão Sete Cordas apresenta, de casa, composições, sempre com alguma inédita, que considera pilares da música popular brasileira e fundamentais na construção e consolidação do gênero a que dedicou uma vida. Com sua técnica apurada, vai mostrar didaticamente as subdivisões do samba, tais como o samba de terreiro, o samba sincopado e o samba urbano. O cardápio de excelência inclui mestres do naipe de Silas de Oliveira, Pixinguinha, Ismael Silva, Noel Rosa, Candeia, Nelson Sargento, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira. No repertório desta quinta (18), obras de compositores de destaque nas escolas de samba cariocas,

Na sequência de programas surgirão também criações de alguns dos autores e cantores com quem atuou, como instrumentista, produtor ou diretor musical. Povoam esse universo afetivo Cartola, Dona Ivone Lara, Délcio Carvalho, Monarco, Nei Lopes, Zé Kéti, João Nogueira, Elton Medeiros, Mauro Duarte, Alcione, Beth Carvalho, Cristina Buarque, Teresa Cristina, Wilson Moreira, Wilson das Neves, Alcione, Beth Carvalho, Teresa Cristina, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra e Zeca Pagodinho.

O começo com Zeca

Com Diogo Nogueira e Zeca Pagodinho no pragrama Samba na Gamboa - Foto: Kamyla Abreu/TV Brasil
Com Diogo Nogueira e Zeca Pagodinho no programa Samba na Gamboa – Foto: Kamyla Abreu/TV Brasil

O encontro com Zeca não aconteceu no Cacique de Ramos, onde o artista começava a ganhar destaque e atenção da madrinha Beth Carvalho. “Conheci o Zeca por meio do irmão dele, o Meco, com quem tocava na noite. Nosso encontro musical foi bem por acaso. Fui chamado a um estúdio para gravar um álbum. Não perguntei quem era o artista; apenas de quanto era o cachê. Quando cheguei lá, era para o primeiro álbum do Zeca. Gravei e passei a integrar sua banda. Aos poucos, fui assumindo a direção musical dos shows pois era preciso aproximar o som dos shows do que a gente fazia no estúdio, deixar de lado aquela situação tão comum em rodas de samba como aquele ‘me dá um dó’ e vai todo mundo atrás”, comenta, acrescentando que Zeca sempre o deixou trabalhar com autonomia a partir do momento que esta missão lhe foi delegada.

A carreira como produtor foi alavancada quando começou a trabalhar com Rildo Hora, o grande gaitista que tornou-se um dos mais prestigiados profissionais do segmento que acumula trabalhos com João Bosco, Martinho da Vila, Luiz Gonzaga, Beth carvalho e o próprio Zeca. “Soube do interesse do Rildo pelo Zeca quando fui tocar com ele em Campos. Conversamos muito na estrada. Levei o recado pro Zeca e a mudança de gravadora na época, para trabalhar com o Rildo, foi importantíssimo para ele. E para mim também. Aprendi muito com o Rildo”, revela.

Histórias como essa serão contadas com aquela informalidade e carioquice já conhecidas de Paulão nas lives que terão 45 minutos. E na segunda-feira seguinte, o músico postará em suas redes sociais as partituras e cifras (para violão e cavaquinho) de três das canções executadas no programa. “Quando eu estava começando era um deus nos acuda para conseguir certas partituras. Hoje, com internet, essa pesquisa musical é muito facilitada… Disponibilizar partituras é uma forma de manter o samba preservado”, ensina.

Dividindo o placo com Nelson Sargento - Foto: Divulgação
Dividindo o palco com Nelson Sargento – Foto: Divulgação

Entre os projetos interrompidos pela necessidade do isolamento social, Paulão precisou interromper pela metade a produção do novo álbum de Nelson Sargento. “Já temos cinco faixas gravadas. Como Nelson tem a idade avançada (95 anos) era impensável prosseguir o trabalho. Mas falo com ele regularmente. Está empolgado em retomar quando isso tudo passar”, comenta. O maior baque, conta, foi a suspensão de toda a agenda de show de Zeca Pagodinho. “No fim de semana em que tudo começou a fechar (13 e 14 de março) tínhamos duas datas no Vivo Rio”, recorda.

Sem contar as rodas de samba e choro. O músico é presença constante nas melhores rodas cariocas: Bip Bip, Trapiche Gamboa, Gloriosa, Sobrenatural e tantas outras. No vídeo abaixo, em depoimento ao jornalista Caio Barbosa no programa Alma de Bar, Paulão Sete Cordas fala de sua relação com o Bip Bip, trincheira de resistência política e musical:

Mesmo sem patrocínio, Paulão Sete Cordas está animado com o projeto das lives que lhe permitirá exercer a liberdade de tocar o que quiser, ou seja, as músicas que curte em casa e junto aos amigos, além da possibilidade de transmitir um pouco de seu vasto conhecimento da história da MPB a outras gerações.

Por ter uma corda a mais, afinada em notas graves, violão de sete é tipicamente um instrumento de acompanhamento permitindo que os violonistas de seis possam solar. Em 2017, Paulão apresentou-se no programa Todas as Bossas da TV Brasil tendo seu filho, Ramon Araújo, como solista. O duo se entende como convém a pai e filho unidos pelo amor a belas melodias. No repertório, peças de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Heitor Villa Lobos, Guinga, Paulinho da Viola e Radamés  Gnatalli que compõem o show “Conversa de Violões”. Acompanhe com a gente essa grande demonstração do que de melhor o violão brasileiro pode proporcionar:

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