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Pepeu Gomes – A reinvenção do camaleão*

Pepeu Gomes - Foto Divulgação

São 52 anos de carreira, 66 de idade e, agora, 340 músicas gravadas em 44 discos, sendo 18 de carreira solo. Contudo, não se traduz Pepeu Gomes com números. Sua verve gira em torno do som. “O que me motiva é a curiosidade de saber até aonde a música pode chegar”, diz o virtuose da guitarra nacional. Após intervalo de 14 anos, Pepeu renasce com um álbum de inéditas, ‘Eterno retorno’, a ser lançado em duas semanas. Pela primeira vez, seu suingue flerta com o eletrônico e a possibilidade real de conquistar um público, literalmente, novo. “Achei 400 músicas na gaveta e as peneirei até chegar a dez. Busquei uma
identidade nova para o meu som, pois não sou ainda da geração internet. Senti que, se fizesse um trabalho voltado para este público, meus antigos hits viriam junto. Quero me aproximar mais dos jovens.”

Para isso, nada melhor do que seu instrumento de trabalho. “A guitarra atravessa gerações, não envelhece. Ela me motiva a querer acompanhar a evolução da música. Me fascina descobrir o que está efervescendo, o que mexe com as pessoas. Sempre fui inquieto.”

Verdade. Quando criança, amarrou uma corda de aço num pedaço de madeira e, ao esticá-la, tirou o som de “Brasileirinho”, que o seduziu pelo rádio. Em 1970, desmontou uma televisão para fazer a distorção que rendeu o mítico “Acabou chorare”, dos Novos Baianos.

Também nunca deixou de estar atento. Em 1985, ao ver Erasmo Carlos massacrado por metaleiros, mudou o repertório de sua apresentação no Rock in Rio em plena coxia. “Virei o jogo. Percebi que entraria para ser vaiado ou me consagrar. Trocamos
as românticas por instrumentais e mudei a levada de certas canções. Tais ajustes me salvaram.” Veja aqui um trecho dessa apresentação que marcou a primeira edição do Rock in Rio: Pepeu Gomes interpretando “Masculino e Feminino”, de sua autoria em parceria com Bernadeth Cidade e Claudimar Oliveira Gomes.

Essa constante atenção aos sinais e a coragem de se desafiar o fez atacar, de uma só vez, duas frentes. Como nunca é tarde para se reinventar, além de se render à pegada eletrônica, misturou velhos colaboradores a novos parceiros. “Arnaldo Antunes é das antigas, já fizemos música até para a Cássia Eller. Nunca tinha feito parceria com a Zélia (Duncan), apenas ela gravou ‘Alma’, canção minha que entrou em novela. Com o Nando também foi a primeira vez, e fizemos logo dois a zero! Ele sempre foi muito aberto, ficaram ótimas nossas duas faixas.”

“Pepeu Gomes é um dos gigantes da música brasileira e também bastante respeitado mundo afora”, elogia Ivo Meirelles, seu parceiro em “Paz sonhada”. “Nossa canção tem mais de dez anos, mas parece atual. É muito inspirador, para mim, participar desse trabalho tão audacioso.”

A principal novidade responde pelo encontro entre o veterano camaleão e os novos talentos. Pepeu apresenta parceria com a banda de rock baiana Vivendo do Ócio e com os compositores Cyro Telles e Filipe Pascual, além do artista guianês Harold Caribbean, que solta um rap na faixa “Porque eu te amo”. “Três gerações geraram esse disco”, acrescenta Pepeu. “Foi uma experimentação, um ‘Pepeu Experience’”, brinca, fazendo analogia com o disco ‘Jimi Hendrix Experience’.

“O recado desse álbum é ter coragem. No meu caso, perdi o medo e a preguiça de me renovar como artista. Fiquei assustado, me questionei se não poderia me arrepender, já que tenho um lugar conquistado na MPB, mas cheguei à conclusão de que quem não arrisca não petisca. Mudar sim, mas não se violar. “Meus riffs de guitarra permanecem. Eles são minha personalidade, minha carteira de identidade. Comecei gravando eles e, depois, trabalharam efeitos em cima. Fiz o que queria. Os produtores só limparam excessos.”

Dentre as novas canções, “José” é uma homenagem ao irmão mais velho que perdeu no ano passado. “É uma música emotiva. Sequer consegui fazer a letra, mas a guitarra é baseada em “Le Wind Cries Mary”. “Mone”, por sua vez, não tem nada a ver com dinheiro. É para a sua mulher, Simone Sobrinho, com quem completa duas décadas de relação. “Esta música é meu ‘Drão’, do
Gilberto Gil, devia isso à ela. É bem R. Kelly, um R&B.” A única regravação é “99 vezes”. “Foi a primeira que cantei pelos Novos Baianos, quando o Moraes saiu, em 1974.” De psicodélica, virou acústica.

Uma usina de sons e de sonhos

Pepeu Gomes com Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo nos Novos Baianos - Foto: Reprodução
Pepeu Gomes com Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo nos Novos Baianos – Foto: Reprodução

Pepeu Gomes é do mundo. Em Los Angeles, conseguiu com o luthier que consertava as guitarras de Eddie Van Halen que fizesse instrumentos sob medida para seu braço. Algumas das guitarras têm preamps adaptados por Roger Meyer, que gravava os discos de Hendrix. Pensa em fazer um memorial ou exposição, desenvolve uma série de guitarras PGs personalizadas com seu nome, para vender no ano que vem aos fãs (“Só assim vão extrair o som que faço”) e matura a ideia de uma biografia. Afinal, tem dez irmãos, todos músicos, e é filho de uma professora de piano (“Único instrumento que tenho vontade e não consigo aprender”) e um pai que chegou a montar banda de serenata, em Salvador, com Dorival Caymmi e, acredite, Antônio Carlos Magalhães. “Pirei ao saber disso!”

Em sua sala espalham-se guitarras – são mais de 90 no apartamento – e revistas como “Backstage”, “Rolling Stone” e “Guitar World”, publicação americana que, por sinal, o elegeu como um dos dez melhores guitarristas do planeta. “Somos a melhor
música do mundo, desde a Bossa Nova buscávamos esse lugar. No exterior, me respeitam do primeiro ao último acorde. Num workshop que dei em Berklee, quando peguei num bandolim dez câmeras focalizaram a minha mão, para entender como
cabia nele.”

Recebe direitos autorais de onde nem sonhava, da Indonésia ao Afeganistão. Tem pedido para fazer “Eterno retorno” em espanhol. Porém, vê o avanço da tecnologia como ambíguo. “O lado bom é marcar um show sem precisar por cartaz na rua. Basta soltar a noticia e milhões de seguidores ficam sabendo. Porém, perdemos o controle sobre a nossa obra. A parte
autoral ainda está engatinhando, os artistas têm de redobrar a atenção.”

Pai de oito e avô de dois, nunca fez cirurgia plástica, mas é vaidoso. “Tenho um quarto só de roupas e adoro andar perfumado.” Sobrevivente, trocou as drogas por saúde. “Há seis anos faço medicina ortomolecular, como apenas alimentos compatíveis com meu sangue, me exercito com ginástica e, na praia, pego sol fraco, feito bebê. Só ‘piso na jaca’ aos sábados. Mesmo assim, chope, vinhos e champanhe tenho bebido com moderação.”

Para ele, o rock nunca vai morrer. “É o único estilo que atravessa gerações. Os outros chegam e somem, têm prazo de validade.” Quer ver, no entanto, personalidade na turma que chega. “Antes de mim só havia Lanny Gordin. Consegui sobreviver ao pessoal que, em passeatas, pedia a morte da guitarra. Hoje há mais facilidade para conseguir instrumentos ou informação. Mas os jovens guitarristas têm de se ouvir internamente para descobrir suas personalidades próprias. Melhor do que copiar um
solo é inventá-lo.”

Pepeu não para. O homem que misturou Hendrix com Jacob do Bandolim nos Novos Baianos sonha agora em disco com sinfônica. “O maestro João Carlos Martins me pressiona por isso.” Em 2019, lançará novo álbum instrumental – vem participando de festivais do gênero junto a músicos como Hermeto Paschoal e Stanley Jordan – e outro de inéditas dos Novos Baianos.

Ele se atualiza por meio das plataformas digitais. “Tenho de aderir à modernidade, para não me tornar retrógrado.” Pepeu Gomes prepara o show de lançamento de ‘Eterno retorno’, previsto para novembro, com as novidades aliadas a clássicos como “Malacaxeta” e ‘Planeta Vênus’, mas já pensa no próximo trabalho. “Venho pesquisando músicas africanas e do Caribe para misturá-las à brasileira. É meu próximo desafio.” A ser vencido, com certeza.

*Publicado originalmente na edição de 7 de outubro de 2018 no Jornal do Brasil

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