Rock

Peter Frampton ‘esquece’ as letras (e brilha)

peter frampton

Por Luis Fernando Rios

A capa de ‘Frampton Forgts the Words’ – Foto: Divulgação

Há músicos muito apegados a seus instrumentos. Peter Frampton é um deles. Uma de suas guitarras favoritas, uma 1954 Les Paul Phoenix — que se perdeu em um acidente de avião em 1980 e foi recuperada mais de 30 anos depois – é a mais usada em “Frampton Forgets the Words, o novo álbum de estúdio da The Peter Frampton Band, que acaba de chegar às plataformas digitais.

O álbum apresenta tributos instrumentais de algumas das canções favoritas de Frampton e é a continuação natural de seu álbum instrumental vencedor do Grammy de 2007, “Fingerprints”. A primeira faixa apresentada, lançada com single na fase de pré-lançamento do álbum, foi sua versão de “Reckoner”, do Radiohead, que chegou acompanhada de um vídeo que a gente confere aqui:

Frampton Forgets the Words” foi coproduzido por Frampton e Chuck Ainlay e foi gravado/mixado no próprio Studio Phenix, de Frampton, em Nashville (EUA). Com sua querida 1954, o músico mostra seu virtuosismo tocando canções de David Bowie, George Harrison, Stevie Wonder e Lenny Kravitz, entre outros.

 “Este álbum é uma coleção de dez das minhas músicas favoritas. Minha guitarra também é uma voz e eu sempre gostei de tocar minhas melodias favoritas que todos nós conhecemos e amamos. Essas faixas são minha excelente banda e eu prestando homenagem aos criadores originais destas músicas maravilhosas. Foi muito divertido de fazer e eu realmente espero que todos também gostem”, explica Frampton. São elas: “If You Want Me To Stay” (Sly & The Family Stone), “Reckoner” (Radiohead), “Dreamland” (Michael Colombier & Jaco Pastorius), “One More Heartache” (Marvin Gaye), “Avalon” (Roxy Music), “Isn’t It A Pity” (George Harrison), “I Don’t Know Why” (Stevie Wonder), “Are You Gonna Go My Way” (Lenny Kravitz), “Loving the Alien” (David Bowie) e “Maybe” (Alison Krauss).

Peter Kenneth Frampton, vocalista e guitarrista prodigioso, nascido em Londres gravou muitos discos e tem no currículo um dos álbuns ao vivo mais vendidos da história. O épico e super bem gravado “Frampton Comes Alive”, de 1976, o catapultou para a fama definitivamente, contendo performances colossais!

Para entendermos melhor como surgiu a ideia de “Peter Frampton Forgets The Words” é preciso voltar no tempo e relembrar um pouco a carreira deste incrível guitarrista. Ainda na adolescência integrou a banda inglesa The Herd, que tocava aquele tipo de música descartável para adolescentes. O visual bem cuidado do jovem guitarrista contribuiu muito para o sucesso da banda. Mas aquela proposta musical era pouca coisa para seu enorme potencial. Em 1968, juntou-se a Steve Marriott para formar o Humble Pie. Após abandonar a banda, em 1971, participou como músico de estúdio em algumas gravações de George Harrison, David Bowie, Jerry Lee Lewis, Ringo Starr, entre muitos outros, e fez turnês com nomes como Stevie Nicks, Greg Allman, Lynyrd Skynyrd, Cheap Trick e Steve Miller Band.

Peter Frampton
Peter Frampton em foto de 1976, na fase do álbum ‘Frampton Comes Alive’ – Foto: Reprodução

Toda essa experiência o preparou para, logo em seguida, aos 22 anos, seguir carreira solo, deixando pra trás os quatro excepcionais álbuns e várias ótimas composições no Humble Pie. Os quatro primeiros discos solo tiveram razoável sucesso e originaram o grande momento de Frampton. Seu primeiro álbum solo é de 1972. “Wind of Change”, com a banda Frampton’s Camel – formada por Mickey Gallagher (teclados), Mick Kellie (bateria) e Rick Wills (baixo) – teve boa acolhida da crítica e já revelava ao mundo mundo um guitarrista técnico e criativo. Sua marca registrada era o chamado talk box (um dispositivo que dava à sua guitarra um efeito similar à voz humana.

Gravado em 1976, o quinto álbum, “Frampton Comes Alive”, rapidamente se tornaria o disco ao vivo de maior vendagem de todos os tempos na história do rock e logo o transformou num músico de grandes arenas. Um fenômeno embalado por faixas como “Babe, I Love Your Way” e “Show Me The Way”, que fizeram de Frampton um dos rock stars mais badalados daquela década. Em 2020, o álbum foi incluído no “Grammy Hall of Fame”. Da mesma forma que veio o sucesso, começaram concomitantemente os grandes dissabores na vida do guitarrista.

Nesse momento ele tinha 27 anos e após gravar “I’m In You”, seu disco de 1977, se percebeu seguindo um modelo de carreira que logo o desagradou. Ele se viu como um ídolo “teen” e a chance de reconhecimento pelos seus excelentes e evidentes dotes como guitarrista estavam “indo pelo ralo”.

Um acidente de carro quase fatal e o sumiço de sua amada Gibson Les Paul 1954 preta, num acidente de avião na Venezuela, foram alguns dos problemas a assolar a vida do músico. Aliás, essa guitarra está eternizada na capa de “Frampton Comes Alive” – reaparecida e recomprada 30 anos depois, foi apelidada de Fênix pelo músico.

Frampton também foi à falência e ficou viciado em remédios e álcool, após o acidente de carro que aconteceu nas Bahamas. Passado tudo isso, o guitarrista, hoje vegano, deu a volta por cima, muito graças aos amigos. David Bowie – seu colega desde a infância – o chamou pra gravar seu álbum “Never Let Me Down” e o levou em sua mega turnê super bem sucedida desse álbum, chamada “Glass Spider” em 1987.

George Harrison também foi seu parceiro em vários momentos. Eles se conheceram num estúdio em Londres em 1970, onde o Beatle trabalhava na gravação de um disco de uma artista chamada Dorys Troy. Frampton conta que ele o viu, apertou sua mão e o convidou pra tocar guitarra numa música do álbum. Frampton incrédulo, porém relutante, aceitou. Então Harrison o emprestou sua Gibson 1957 vermelha (apelidada de Lucy). Essa guitarra foi a mesma que Eric Clapton deu de presente ao ex-Beatle, após tê-la usado pra gravar “While My Guitar Gently Weeps” no “White Album” (1968) – Harrison disse pra ele tocar a base da canção que estava sendo apresentada a ele naquele momento. E Harrison o seguiria acompanhando. Ele quase não acreditava no que estava acontecendo…

Outros como Ringo Starr e o próprio Eric Clapton, também são amigos muito chegados. Daí por diante, ele manteve-se longe da fama, mas com a carreira sob controle, gravando e se apresentando, com certo sucesso.

Em 1996, a turnê mundial de Frampton incluiu alguns shows no Brasil. Deste giro nasceu “Frampton Comes Alive II”, álbum em que revisitou os grandes sucessos do aclamado volume 1 e incorporou ao repertório músicas de sua produção mais recente.  Em 2014, Peter Frampton teve o nome incluído merecidamente no “Musicians Hall of Fame”.

Peter Frampton
Peter Frampton – Foto: Divulgação

Na produção recente, seu excelente álbum “All Blues” (2019), com versões para a fina flor do Mississipi ficou em primeiro lugar por por quinze semanas na concorridíssima  Billboard Blues Chart. E a exemplo do sucesso que faz com sua música, sua autobiografia “Do You Feel Like I Do?: A Memoir, lançada em outubro do ano passado pela Hachette Books, estreou com êxito na lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times.

Este seu mais novo disco, mostra acima de tudo, a versatilidade e capacidade de reinvenção, além da tenacidade do artista. “Peter Frampton Forgets The Words” é uma ode a amizade e um tributo aos artistas que o ajudaram e o influenciaram de alguma forma.

Possuidor de um estilo melódico e virtuoso ao mesmo tempo, Frampton tem realmente grandes composições. “Shine On”, “Only You Can See” e “Live With Me” com o Humble Pie e “Show Me The Way” e “Baby, I Love Your Way” em carreira solo, são bons exemplos de grandes músicas dele. Outros guitarristas como Slash, Dave Grohl, Matthias Jabs e Rick Sambora por exemplo, o citam como grande influência.

Em 2019, Frampton lançou um ótimo disco de blues. O aclamado “All Blues” traz composições icônicas do blues e sua releitura pra esses clássicos ficou excelente. Depois de lançado o álbum, ele divulgou que deixou outras músicas na mesma linha gravadas para uma parte dois e falou também que tinha a pretensão de realizar uma última turnê mundial.

“The Farewell Tour” se iniciou em 2019 em Tulsa nos EUA e quando em 2020 se estenderia a Europa e a outros lugares, inclusive com datas no Brasil, a pandemia nos surpreendeu.

Frampton voltou aos estúdio para gravar mais músicas e com isso, ter material pra lançar no futuro outros discos. Com isso, a ideia do álbum de covers tomou corpo.

Toda essa ânsia por gravar mais e mais tem um motivo que foi revelado pelo próprio artista ainda em fevereiro de 2019. Ele foi diagnosticado com uma atrofia muscular que piora progressivamente. Especialmente as mãos são muito afetadas por essa doença degenerativa. Ela chama-se Miosite por Corpúsculos de Inclusão e é auto-imune. O tratamento pode retardar os sintomas, mas ela é incurável. Isso que dizer que provavelmente quando pudermos ter novamente a realização de shows ao vivo, Peter Frampton poderá não estar apto a tocar. No momento, as suas pernas estão mais afetadas, mas a progressão da doença é imprevisível.

Temos aqui, segundo o próprio Frampton, muita reverência aos artistas e muita diversão nas gravações.  Junto com sua banda, Frampton deu um toque um tanto jazzístico a maioria das canções. Apesar disso, conseguimos já numa primeira audição, perceber a sua reconhecida marca. As notas fluem lindamente e o som de sua guitarra permitiu que essas já conhecidas e veneradas canções ganhassem uma nova roupagem. Através do emocional e respeitoso trabalho de um dos mais emblemáticos e ao mesmo tempo subestimados guitarristas de nosso tempo, músicas como “Isn’t It A Pity” de George Harrison, jorram sua beleza inconteste. A faixa também ganhou um excelente vídeo:

Frampton é ganhador de um Grammy pelo excelente álbum já citado de 2006, “Fingerprints” e lançou no ano passado sua autobiografia. “Do You Feel Like I Do”. Nela, muitas revelações são feitas. Numa delas, ele diz que depois do aparecimento de sua doença, ele passou a ser “menos egoista”. Uma das provas disso é esse belo e tocante álbum. As versões de “Reckoner”, Dreamland”, “Avalon”, Isn’t It A Pity” e “Loving The Alien” que nos deixam de “queixo caído”.

Aproveitemos “nosso” Peter Frampton enquanto ele ainda consegue empunhar sua  “Fenix”.

Boa audição!!

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