Opinião

Porque não surgiu outro Tom Jobim

Tom Jobim, o maestro soberano - Foto: Reprodução
Lipe Portinho*
Especial para Na Caixa de CD

Entrei em um carro de aplicativos outro dia e tive uma surpresa arrebatadora: ao volante estava meu colega de música, um dos maiores bateristas que já ouvi tocar e que já acompanhou vários nomes da música pop os quais certamente você e eu conhecemos todos. Viemos pelas ruas do Rio debatendo os temas do cardápio do dia: pandemia, governadores, política, etc. Confesso, porém, que o fato dele estar guiando e não trabalhando em grandes espetáculos, tomou-me de forma impactante. Algumas perguntas ficaram atormentando minha cabeça. Como um artista daquele nível poderia estar em outra profissão que não a de músico? Onde falhamos? Ou, como bom brasileiro: isto é culpa de quem?

Ao chegar em casa, fui checar recados, e-mails e as temerárias redes sociais. Numa das redes, um fã – se é que compositor clássico brazuca tem isso – questionava: “Lipe, explica porque que nesta terra nunca nasceu outro Tom Jobim”. Hoje essa resposta é fácil para mim, e tem a ver com meu amigo ao volante (que também havia tocado com o Tom).  Depois de passar três anos pesquisando o mercado musical, a formação de jovens músicos, dando palestras e lecionando sobre o assunto, respondi com a firmeza de um sobrevivente da cultura no Brasil: por causa das leis de incentivo.

Wolfgang Amadeus Mozart - Foto Reprodução
Wolfgang Amadeus Mozart – Foto: Reprodução

Para explicar melhor vou voltar ao século XVIII com ajuda do sociólogo alemão Norbert Elias (1897 – 1990) que escreveu um livro sobre Mozart. “Mozart, a Sociologia de Um Gênio” fala sobre a adaptação a que este foi submetido para sobreviver no mercado da música da época e os motivos que o fizeram “desistir” da vida – ele morreu doente, mas sob o ponto de vista de muitos foi uma espécie de “suicídio”. Como o maior dos compositores do período clássico pôde se “apagar” tão amargamente? Resposta rudimentarmente simples: ele “saiu de moda” e não se readaptou às novas situações.

Obviamente todo o processo foi muito mais complexo e a problemática envolve o começo lento da transformação social liberal dos Estados daquela parte da Europa versus as expectativas pessoais de Mozart, o desenvolvimento de estratégias metodológicas erradas, assim como o processo de formação e profissionalização do jovem intérprete e compositor que, apesar de genial, não se encaixou no perfil social cortesão da época. Também houve o estresse dos fracassos em conseguir novos postos de trabalho, gerados por um mercado hermético, baseado quase unicamente nas cortes europeias próximas. Somamos então a necessidade artística pessoal de liberdade na criação de repertório para o livre mercado recém nascido, sem uma demanda ainda definida – até mesmo por falta do entendimento do que seria o mercado – entre tantos outros vetores. A influência de todos esses elementos na vida do gênio, geraram a depressão que o levou à morte.

Expectativa versus mercado, exatamente o dilema que Tom Jobim, se vivo hoje,  estaria passando. A eterna espera de um reconhecimento monetário pela excelência de seu trabalho artístico, necessariamente nessa ordem: trabalho e recompensa. Afinal, quando requisitado ele sempre costumava a dizer: “não tem um dinheirinho nisso aí?” O ator Juca Oliveira e tantos outros já bradaram: o mercado de cultura brasileiro não é regulado desde 1986 pela demanda da sociedade civil – que segue a relação demanda/trabalho/recompensa – e sim pelas leis de incentivo fiscal, uma relação filosófica invertida. É dinheiro público, dado pelo Estado para a área de propaganda, não para a música ou as artes, e estas estão apenas figurando no papel de “prostitutas” num negócio que o benefício maior fica com o “cliente” (os departamentos de marketing), e onde o Estado é o “cafetão apaixonado”.

Como um “Jobim” poderia aparecer novamente? Eles estão por aí, eu pessoalmente conheço uns 15, e pelo menos uns cinco “Villa-Lobos”. Mas esses nossos gênios originais nasceram em época de um mercado livre, entre tantas outras diferenças. E se fossem vivos hoje, mesmo o próprio Mozart, provavelmente seriam músicos de sertanejo universitário (que tem 26% do mercado de shows segundo as pesquisas da J. Leiva) ou estariam fora do mercado, como o baterista de hoje.

*Compositor, maestro, contrabaixista e Mestre pela UFRJ

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