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Precisamos falar sobre Alexandre Carvalho e o jazz 

Alexandre Carvalho

Lipe Portinho*
Especial para o Na Caixa de CD

 

Domingo, dia 16 de agosto, acordei exausto, ainda na ressaca do trabalho puxado de dirigir as filmagens das transmissões ao vivo da Sala Cecília Meireles aos sábados. Logo cedo tocou o telefone, era o amigo Gustavo Cunha querendo saber como eu estava reagindo à perda inusitada de meu parceiro, o guitarrista de jazz Alexandre Carvalho, na noite anterior. Eu simplesmente não sabia de nada. O “Músico dos músicos” havia nos deixado depois de duas paradas cardíacas seguidas em Carangola (MG). Cheguei a ligar para ele, mas entendi a estupidez do que estava fazendo, afinal, cada um tem seu tempo aqui na terra e o dele, inacreditavelmente, havia passado – apenas 56 anos. Só nos restava chorar sua ida.

Sem sabermos, no dia cinco de março deste ano maluco de 2020, eu, Ana Azevedo, Marcelo Martins e André Fróes havíamos tocado no Baretto-Londra no que foi o último show dele sobre este planeta. Foi uma noite inesquecível de jazz, daquelas poucas que fazem valer a carreira de músico. Dez dias depois sua viagem aos EUA seria cancelada por causa da pandemia, ele pretendia tentar voltar a morar em Nova Iorque, seria a terceira tentativa de “fazer a América”. Com o confinamento forçado, Alexandre entrou num processo de ansiedade e frustração que provavelmente o levou à morte. Músicos não conseguem ficar sem tocar, perdem sua função primordial dionisíaca.

Leg: Alexandre Carvalho teve uma ascensão meteórica no cenário do jazz brasileiro - Fotos: Acervo Pessoal
Alexandre Carvalho teve uma ascensão meteórica no cenário do jazz brasileiro – Fotos: Acervo Pessoal

Nesta correnteza de tristeza as perguntas transbordavam em minha mente, o que leva um músico a ter esse relacionamento quase de dependência com o seu ofício? O que fez Alexandre, um dos top 5 guitarristas da história no Brasil, ficar tão ansioso? Afinal, qual poderia ser o seu futuro mercadológico aqui ou nos EUA? Esses questionamentos têm várias respostas, mas preferi perguntar à um de seus maiores amigos, o fantástico saxofonista AC, que conviveu muito mais tempo com ele do que eu.

AC conheceu o guitarrista virtuoso ainda jovem, no começo dos anos de 1980, ao fazer parte da banda de Aloysio Neves, onde Alexandre já estava. A partir daí a paixão por estudar música os uniu até o final da vida de Alex. Eles admiravam os jazzistas, principalmente aqueles brasileiros que foram, ainda na primeira e segunda leva dos anos de 1970, estudar na Berklee College of Music – única universidade àquele tempo com um plano pedagógico super estruturado em jazz. Para os dois, ir para a Berklee passou a ser uma meta. Alexandre foi primeiro, em meados dos anos 80 e AC foi em 1988. AC chegou a encontrar o amigo lá, mas Alex já estava querendo voltar, antes mesmo de se formar, pois havia se decepcionado com o curso. E, em contrapartida, no seu retorno em 1989, o Rio respirava cultura com casas como o Gula Bar, Botanic, Mistura Fina, Jazzmania, Rio Jazz Club, entre tantos outros estabelecimentos onde a música era o verdadeiro prato principal. Alexandre Carvalho teve uma ascensão meteórica no cenário do jazz brasileiro e, ao voltar a tocar com o saxofonista franco-argelino Idriss Boudrioua, virou o guitarrista da moda.

Participou de vários grupos, entre eles o de Leo Gandelman e teve até a admiração declarada de Pat Metheny, que morava aqui naqueles anos. Quando a decadência da cidade começou a suplantar o brilhantismo da arte carioca, o primeiro mercado a se retrair foi o da música, pois a estatização da cultura, a sucessão de péssimos gestores na área, assim como a falência da segurança, foram vetores decisivos na destruição do que um dia foi um dos melhores mercados da América Latina. As casas noturnas antigas e novas depararam-se com o caos do mercado musical: a meia entrada paga pelo artista, o Ecad sem regulação superior, a insegurança, e a tolerância zero da Lei Seca – que foi um grande avanço social, porém mal dosado na aplicação. Hoje a cidade com sete milhões de habitantes – sem contar a periferia – teria apenas um clube de jazz nos moldes tradicionais, o Triboz, do australiano Mike Ryan. Não há ambiente propício para o negócio da música e no berço da bossa nova não existe lugar onde se ouvir o gênero.

Se pensarmos que este mês, no blog London Jazz News, o repórter Peter Bacon escreveu que na capital inglesa 64% dos jazzistas estão mudando de profissão, Alexandre não tinha muito para onde ir, e os EUA sem dúvida parecia o último suspiro de liberdade mercadológica para um músico como ele. Repetia a história de Garoto, Laurindo Oliveira, Romero Lubambo, os irmãos Assad, e tantos outros guitarristas que migraram para outras terras em busca de trabalho e reconhecimento. Mas a verdade é que quando estava lá reclamava do American way of life e quando cá estava quase não tinha oportunidades de se apresentar como gostaria. Passava a maior parte do tempo dando aulas e resmungando.

Qual seria então o futuro de Alexandre Carvalho? Qual será o nosso? Em meados dos anos de 1990 Alex deixou de tocar com João Bosco, fez mestrado na UFRJ e doutorado na Manhattan School of Music, onde chegou a lecionar. Foi professor de toda uma geração de guitarristas brilhantes como João Castilho, João Gaspar, Felipe Poli, Fernando Clark, Thiago Trajano, entre muitos. Basta entrar num grupo de guitarristas no Facebook e perguntar quem foi aluno dele, te garanto que vai ter mais comentários que em memes políticos. Alexandre ficava entre o Rio, São Paulo, Carangola, cidade de sua mulher, e a Brasília do amigo clarinetista Ademir Júnior. Provavelmente um futuro acadêmico para ele estava mais perto aqui do que lá fora.

Alexandre Carvalho foi o “Músico dos músicos”, mas com uma péssima estratégia de marketing, coisa que o século XXI não aceita mais. Ele era guitarrista de jazz aqui ou em Nova Iorque, o que não acontece com seus pares brasileiros. Provavelmente seu maior legado foi consolidar a carreira de guitarrista de jazz no Brasil depois que tantos outros tentaram, mas não fugiram de serem multi-instrumentistas de vários gêneros. Também formou uma escola de guitarristas que poderá, num futuro próximo, ajudar a responder às perguntas que ele se fazia. Deixou-nos inúmeras gravações, mas apenas um disco autoral inacabado, Rio Joy – que está nas plataformas digitais. Alexandre Carvalho se foi e entrou para a história da música brasileira.

Acompanhe aqui uma de suas últimas entrevistas, em participação no programa Fica a Dica, apresentado pelo também guitarrista Nelson Faria. Nesse encontro, ele fala sobre as particularidades da guitarra no jazz. além de exibir sua refinada técnica:

*Maestro, contrabaixista, diretor de cinema e produtor de TV

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