Rock Brasil

Raul Seixas, o Maluco Beleza revelado no palco

Quando decidiu encenar um monólogo, em 1999, o ator Roberto Bomtempo, jamais imaginou que estaria prestes a se fundir com uma das personalidades mais marcantes do rock brasileiro, quer dizer da Música Popular
Brasileira. Vinte anos depois, o espetáculo Raul Fora da Lei – A História de Raul Seixas foi encenado em dezenas de cidades, recebendo público estimado de 300 mil pessoas e gerou uma empatia cada vez maior entre personagem
e intérprete. A partir de janeiro, a peça inicia um giro pelo Brasil mas pode ser vista neste sábado (1/12), em apresentação única no Teatro Rival Petrobras – só volta ao Rio em fevereiro. Pelo país, dezenas de fã-clubes já iniciam os eventos relativos aos 30 anos da morte do Maluco Beleza.

O ator, que produz os próprios projetos desde o início da carreira, desejava montar um monólogo, mas não se interessava pelos textos que caíam em suas mãos. “Nada servia. Então, conclui que precisava ser algo que tivesse a ver comigo, algo de que eu gostasse, me identificasse”, lembra. Neste momento, percebeu que a vida de Raul Seixas seria uma boa alternativa. “Ouço Raul desde os 15, 16 anos. Sempre ouvi ao longo da vida. Depois, descobri que havia uns livros sobre ele e fui pesquisando as entrevistas dele, que sempre me tocaram muito. Seu jeito de falar das coisas, sua personalidade forte, libertária”, explica.

Texto são as declarações do próprio Raul

No mesmo instante, descobriu o personagem e o autor ideais. Com textos de autoria do próprio Raul Seixas,
direção de José Jofilly e direção musical de Igor Eça, Bomtempo é acompanhado pela Banda M743 – formada por Igor Eça (baixo), Lipe Rodrigues (guitarra), Elcio Caforo (bateria) e pelos cantores Leandro Baungratz e
Tamara Trindade, para mostrar a vida e o legado de Raul Seixas para a música e cultura brasileira. O espetáculo se detém mais sobre o pensamento de Raul do que as 22 canções apresentadas, revela o ator e produtor que vendeu um carro e raspou a poupança para viabilizar a primeira montagem. “Me desfiz de um Corsa e saquei os oito mil reais que tinha guardados na época. E a coisa estourou. Convites vinham de todo país”. A peça vem sendo
reencenada com o passar dos anos. Houve uma montagem há dez anos e, agora, neste final de 2018, Bomtempo achou o instante de retomar o espetáculo adequado. “Não é só pelos 30 anos da morte dele, mas porque a alma libertária do Raul tem algo a nos dizer nesses tempos tão estranhos”, comenta.

No famoso baú do Raul, o ator Roberto Bomtempo descobriu cartas e poemas do Malucoi Beleza dedicados às suas três filhas. O lado pai de família é um aspecrto pouco conhecido na trajetória do artista. Crédito: Reprodução Internet

Das inúmeras encenações do espetáculo pelo Brasil, Bomtempo guarda uma recordação especial. “Em 2002, me apresentei em Salvador e Dona Maria Eugênia, a mãe do Raul, estava doente, nunca saía de casa, mas fez questão
de ir na peça. No dia seguinte, fui convidado para ir à sua casa e ganhei dela um presente muito especial. O pai de Raul era engenheiro e pintor por hobby. Raulzito não pintava, mas houve uma vez em que entrou no atelier do pai
e pintou uma tela. Ela me deu embrulhado e nem me deixou abrir. Só fui ver em casa: era um autorretrato em que aparecia de cigarro na boca com uma noiva bem surrealista”.

Raul deixou um farto material, entre fitas, escritos, fotos e composições, guardados no seu famoso baú, mantido por Kika, sua última companheira. O roqueiro tinha mania de registrar tudo para a posteridade, na esperança de manter-se vivo na memória do seu público. Parte deste material serviu de fonte de pesquisa para Bomtempo, que hoje é amigo da família, de antigos colaboradores e de (muitos) fãs.

Ao mergulhar no baú do compositor de Gita, Sociedade Alternativa, A Maçã e outras canções libertárias libertárias e pró-amor livre, Bomtempo surpreendeu-se com o Raul pai de família. “Me chamou a atenção a paixão, o amor profundo do Raul pelas filhas, algo que ele não falava nos shows ou entrevistas. Mas, ao mesmo tempo, aquela loucura afastava ele da relação de pai” – o roqueiro teve três filhas, Scarlet, Simone Andrea e Vivian, com três mulheres diferentes. “Esse é um lado delicado dele que coloco na peça, através de cartas e poemas para a Vivi”,
diz, lembrando que todo mundo tem sua loucura e sua lucidez.

Medo da reação dos fãs tradicionais

Em Raul Fora da Lei, o público encara um Raul Seixas aberto, em carne viva, inteiro, exposto, que fala de sua relação com o sucesso, as mulheres, além de sua espiritualidade, anseios, sonhos e frustrações. “Não há um autor escrevendo sobre ele. São seus pensamentos, um lado que nem todos os apreciadores da sua música conhecem”, diz o ator, confessando que, na primeira montagem, temia pela reação dos fãs tradicionais. “Tem aqueles caras que mitificam o Raul, chegavam perguntando ‘o que esse cara vai fazer com o meu Raul?’. Mas, no meio da peça, cantavam e dançavam. O público é que fez a peça ser tão longeva”, acredita.

O ator E produtor Roberto Bomtempo vendeu um carro e raspou a poupança para viabilizar a primeira montagem da do musical. Crédito: Divulgação

Um ingrediente a mais no espetáculo é o encontro de diferentes gerações, do contemporâneo do compositor aos que nasceram depois de sua morte. “Não é comum um jovem de 18 anos ir ao teatro com o pai. Esse mérito não é da peça, mas do Raul”, diz o ator e produtor.

Ao longo dos anos, a peça foi montada também em ginásios, circos, lonas culturais e espaços abertos, inclusive rodeios. “Para montagens fora do teatro, costumo tirar 20% do texto e colocar mais música, para mexer com
a dinâmica. Mas faço questão de lembrar que este não é um show, não sou cantor. A única vez que cantei num palco em toda a vida foi nesta peça”, diverte-se Bomtempo, que arranha um violão de vez em quando.

 

Serviço
RAUL FORA DA LEI – 20 ANOS DE SUCESSO
Teatro Rival Petrobras (Rua Álvaro Alvim, 33 – Cinelândia; Tel: 2240-4469)
1/12 às 19h30. Ingressos: R$70 e R$ 35. Promoção: R$ 55 (primeiros cem pagantes)

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