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Vídeos resgatam bastidores da gravação de ‘Sambolero’, de João Donato

João Donato, Robertinho Silva e Luiz Eça em ação durante a gravação de 'Amazonas', faixa icônica do álbum 'Sambolero' - Foto: Reprodução

Entraram no ar, via YouTube, os primeiros vídeos dos 12 inéditos do CD “Sambolero” (2008), uma das obras-primas do João Donato. Com um repertório que traz parcerias do pianista e arranjador com Carmem Costa, Paulo Sergio Valle, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros, “Sambolero” recebeu o Grammy na categoria de melhor álbum de jazz latino. Produzidos pela Data Pictures, os vídeos inéditos foram realizados durante a gravação do CD no estúdio com um time de craques que reuniu o lendário baterista Robertinho Silva, o contrabaixo elegante de Luiz Alves e o mago da percussão Sidinho Moreira e participação especial do saxofonista e flautista Ricardo Pontes, todos instrumentistas com vasta folha de serviços prestados à música. E a produção musical ficou a cargo de João Samuel. O repertório é composto de músicas que Donato diz que gosta de tocar. “Alguns temas presentes no álbum são apresentados sem as letras que viriam a ganhar depois, mas voltam no disco já com os nomes de batismo dos letristas”, conta Donato.

Mas o que, além do Grammy Latino, faz de “sambolero” um álbum tão especial? O disco realiza um antigo sonho de Donato, o de gravar o trabalho dele com o trio com quem se apresenta há mais de 30 anos. “Esse trio vinha tocando há tanto tempo sem um registro, até que surgiu o convite do meu amigo e produtor João Samuel, que chegou com uma verba para viabilizar estúdio e cachês dos músicos. Foi feita uma tiragem para o patrocinador e depois tive a liberdade de fazer o lançamento comercial”, explica João Donato. “Espero que as pessoas gostem tanto quanto eu esperava que gostassem do ‘Muito à vontade’. E gostaram. De lá pra cá as músicas ganharam letras, amadureceram, tornaram-se nem tão apressadas, ficaram mais tranqüilas, na velocidade do tempo”.

João Donato, o mestre zen da música brasileira - Foto: Acervo Pessoal
João Donato, o mestre zen da música brasileira – Foto: Acervo Pessoal

E Donato atribui essa serenidade à premiação. “Esse disco apresenta uma tranquilidade e acho que por isso ele ganhou o Grammy de jazz latino em meio à agitação dos outros discos latinos. É uma tranquilidade que vem do amadurecimento do nosso trio, eu, o Robertinho e Luiz, por tocarmos juntos há trinta, quarenta anos. Essa tranquilidade fica muito clara na hora de gravar e é percebida por quem está ouvindo. Essa é maior qualidade que eu vejo no “Sambolero”… E dizem os pais que botam os filhos pra dormir ouvindo minhas músicas. Então eu acredito que minha música consiga passar essa tranquilidade e uma sensação de bem estar”, disse Donato, em depoimento, neste sábado de quarentena ao blog.

Palavras tão serenas assim só poderiam vir do criador de “A Paz” (parceria com Gilberto Gil), pois Donato é o mestre zen da MPB. O artista, que o conhece sabe, transborda humildade e empatia do mesmo jeito que derrama sublimes acordes por onde passa. Vale recordar o trecho inicial do release de lançamento de “Sambolero”, assinado pelo genial Tárik de Souza, o jornalista que mais me inspirou a escrever sobre música embora eu esteja a anos-luz de seu talento: “O novo disco de João Donato reafirma o nó geográfico que ele deu nesta parte do planeta com a música. Em seu piano sambista, educado em Debussy e doutorado em Stan Kenton, a América do jazz faz fronteira com o Caribe salseiro e a bossa Brasilis. E essa confluência nunca esteve tão nítida e fluída como nestas 12 composições escolhidas a dedo de pianista entre as obras primas deste compositor/executante, que já foi comparado na matriz aos ases de cada ramo, Cole Porter e Tommy Flanagan. Não por acaso, nem por demais. Acontece que este antecipador da Bossa Nova ultrapassou a inevitável ascensão e queda do movimento para firmar-se, a partir dos 90, como o artista atemporal que sempre foi”.

Estilo de documentário

Com a direção, fotografia e edição de Andre Schultz e Denise Schultz, a gravação tem um estilo quase documentário, no qual a câmera captura imagens únicas do exato instante da gravação de cada uma das faixas de “Sambolero”, nos transportando a um raro momento na intimidade dos músicos no estúdio de gravação.

O vídeo que abre a série é “Amazonas”, uma homenagem do acreano João Donato ao estado vizinho. Aqui o tema surge numa numa versão bem balanceada e o trio Donato-Robertinho-Alves ganha o auxílio luxuoso de Sidinho Moreira, que não larga o cigarro enquanto utiliza seus apetrechos percursivos. Alguns anos depois de composta, a canção ganhou letra de Lysias Ênio, irmão de Donato. Não são raros os temas donatiano que, ao serem, letrados por parceiros acabam ganhando um novo nome, mas “Amazonas” segui com seu título original. Veja aqui o vídeo:

A segunda faixa disponibilizada em vídeo é “Surpresa”, parceria de Donato com Caetano Veloso. Aqui, o trio e Sidinho ganham o consistente apoio de um quarterto de cordas formado por Antonella Pareschi (1º violino), Eduardo Hack (2º violino), Jesuína Passaroto (viola) e Iura Ranevsky (violoncelo). O arranjo das cordas é Oswaldo de Carvalho.

O terceiro vídeo da gravação de “Sambolero” a ser divulgado nas redes é “Bananeira”, que colocou letra no tem que, originalmente, se chamava “Villa Grazia”. Aqui, Donato, Alves, Robertinho e Sidinho levam o tema num ritmo de salsa com interessantes divisões de notas e improvisos inesperados para quem se habituou à versão cantada, hoje bem mais conhecida que o tema instrumental em si. Veja:

Composta originalmente como o nome de “Chombo Lero”, a canção baixo foi rebatizada para “Sambolero”, após receber letra da cantora Carmen Costa. “Ela morava em Nova York e eu passei uma temporada lá com o Mongo Santamaria. Eu encontrava muito com a Carmen e às vezes tocávamos algo juntos nos shows. Dessa convivência, ela fez uma letra para “Chombo Lero”. José “Chombo” Silva era o nome do saxofonista tenor do Mongo e eu fiz um bolerinho em homenagem a ele, nós tocávamos na Orquestra do Mongo e tive a ideia desse bolero e dediquei a ele. Com o tempo, virou “Sambolero” e a Carmen Costa concordou com esse nome quando escreveu a letra, que não tem nada a ver com o Chombo, mas conta da saudade que ela sentia do Brasil”, lembra Donato.

 

Neste próximo vido temos o privilégio de ver e ouvir Donato em todo o seu esplendor técnico, O solo em “Nasci para Bailar” é de enorme qualidade, a ponto dele mesmo exclamar ao fim da execução: “Eu não sei quanto a vocês, mas eu toquei muito!” Outro grande sucesso de João Donato, “Nasci para Bailar” carrega uma história deliciosa que o artista nos conta. Era uma fase em que Donato e o compositor paraense Paulo André Barata estavam sem dinheiro e resolveram pedir na editora da antiga PolyGram um adiantamento sobre quatro novas músicas. “O Paulo me orientou: ‘não fala nada, deixa comigo’. Breno, da editora, foi comunicado sobre o novo sortimento de composições e pediu: ‘deixa as músicas aí pra eu ouvir’. Paulo rebateu: ‘agora não temos tempo’. E Breno: ‘deixa ao menos os nomes’. Paulo disparou na lata: “Nasci para bailar”, “Pra que negar”, “Quando chegou do trabalho” e “Quero sambar”, ou seja a primeira estrofe de um samba. O dinheiro saiu e a dupla comemorou, entoando “Atravessei sete montanhas para chegar no mar, porque nasci, nasci para bailar”. E no reencontro com Breno confessaram a brincadeira. Mas, a música saiu, porque como disse Paulo André, “não se pode ter inspiração sem dinheiro, raspando a parede para comer farofa”.

Aqui Donato, Alves, Robertinho e Sidinho relembram bela melodia de “Quem Diz Que Sabe”, que veria ganhar veros de um dos grandes letristas da música brasileira, Paulo Sérgio Valle (“Quem diz que sabe / Que entende tudo da vida / Que o amor não tem mais segredo / Eu vou contar / Eu fui brincar / Com quem me amou de verdade / Agora eu tenho saudade / Tarde demais”):

Aqui chegamos a um dos temais mais conhecidos da obra donatiana. “A Rã”, originalmente “The Frog”, do álbum “Bad Donato” (1970), ganhou novo nome após receber letra de Caetano Veloso. O registro do tema em “Sambolero” mostra toda a influência de jazz latino na discografia de João Donato.

Os mistérios do estúdio

“Sempre ouvi o termo ‘músico de estúdio’. Sempre achei fascinante esse universo da gravação de um disco.
Em um show com o calor do público as performances são emocionantes mas é difícil serem tecnicamente perfeitas.
A minha intenção sempre foi documentar esse momento mágico no estúdio quando tudo dá certo. Quando a emoção e a técnica estão combinadas. E o que aconteceu nessa gravação foram aqueles momentos raros que o público não tem a oportunidade de ver, só de ouvir… Aqui vocês vão ter a oportunidade de assistir o nascimento do disco vencedor do Grammy no estúdio de gravação”, destaca . Andre Schultz

Detalhe de um lugar sagrado para a MPB: o piano de João Donato - Foto: Acervo Pessoal
Detalhe de um lugar sagrado para a MPB: o piano de João Donato – Foto: Acervo Pessoal

Falar de João Donato é resgatar a trajetória da Música Popular Brasileira desde antes da Bossa Nova. Trabalhou com mitos como Dolores Duran, Tom Jobim, Nelson Riddle, Bud Shank e Chet Baker. Ao lado de Tom, João e Astrud Gilberto, Eumir Deodato e Sérgio Mendes, tornou o Brasil reconhecido internacionalmente por sua música nos anos 1960.

Acordeonista de origem (migou para o piano após ter um instrumento furtado de um carro que ele esqueceu de trancar), Donato era amigo de João, Tom e Vinícius de Moraes, mas não chegou a ser, necessariamente, um dos expoentes do movimento que revolucionou a música brasileira. Ao migrar para os Estados Unidos, coube a ele ser um dos pioneiros na fusão do jazz com a música latina incorporando a musicalidade e batida afro-cubana ao jazz.

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One thought on “Vídeos resgatam bastidores da gravação de ‘Sambolero’, de João Donato

  1. Tenho muita curiosidade de assistir João Donato no estúdio de gravação. Uma grande contribuição para a música termos momentos como esse registrados. O músico consagrado e o momento da criação imortalizados.

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