Rock

White Album, 50 anos sem passar em branco

Em ‘White Album’, George, Paul. John e Ringo deram vazão total à liberdade criativa. Foi quando as diferenças entre os quatro tornaram-se maiores do que as afinidades

No dia 22 de novembro de 1968, lojas de discos de todo o planeta receberam dois LPs de capa totalmente branca e com o título em relevo da mesma tonalidade, que pouca gente parecia perceber e ali estava escrito “The Beatles”. Nono disco da banda de Liverpool e mais conhecido como White Album, esta foi a mais ousada e desconcertante viagem sonora de Paul, John, George e Ringo. Em seu aniversário de 50 anos, o trabalho recebe uma edição comemorativa que reflete toda (ou quase toda) experimentação musical do quarteto que mudou para sempre a história da música: um box com seis CDs e Blu-ray contendo 107 músicas, ou seja, 5 horas e 27 minutos de faixas originais remasterizadas por Giles Martin – filho do produtor George Martin -, extras de gravação, ensaios e jam sessions. Infelizmente, o box chega ao Brasil pela metade, apenas com os CDs 1, 2 e 3. Ouça a íntegra aqui.

As 30 canções do álbum original foram remixadas por Giles Martin e pelo engenheiro musical Sam Okell, em som estéreo e 5.1 surround, acompanhadas por 27 versões acústicas e 50 sessões de gravação, um mergulho profundo e irreversível na fase mais caótica da banda que dava seus primeiros indícios de estar perto do fim. Após o choque conceitual de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts’ Band”, os Beatles se enfurnaram para intermináveis sessões de gravação em Abbey Road. “Tínhamos deixado a Banda de Sgt. Pepper’s para tocar no Champs-Élysées e então seguimos
para novas direções sem rumo”, disse Paul McCartney, em sua introdução escrita para o lançamento do White Album.

Sem rumo, sem a coerência temática do álbum anterior, mas repleto de faixas que entraram para a história. A sequência inicial é arrebatadora nas três primeiras faixas: a sarcástica Back In The U.S.S.R., uma paródia bem-humorada do surf rock dos Beach Boys que tomavam os Estados Unidos de assalto; a balada Dear Prudence
em que John sugere que todos olhem para o que temos em volta; e a funkeada Glass Onion, com uma linha de baixo insinuante assinada por Paul. E espalhadas ao longo do duplo ainda estão a sabedoria filosófica de George em While My Guitar Gently Weeps, ao cantar o verso “with every mistake we must surely be learning” (com cada erro devemos aprender, com certeza), e oferecer um dos mais belos solos de guitarra já executados desde que o rock é rock. Don’t Pass Me By, escrita e interpretada por Ringo, mostra uma faceta até então desconhecida do baterista.

Canções nasceram durante retiro espiritual na Índia

Boa parte das composições do White Album surgiu em Rishikesh, na Índia, entre fevereiro e abril de 1968, quando Paul, John, George e Ringo Starr e suas mulheres iniciaram uma espécie de curso/estágio ou rituais na Academia Maharishi de Meditação Transcendental. Em um cartão-postal para Ringo, que havia retornado a Londres antes dos companheiros, John escreveu: “Temos algo como dois discos prontos agora. Pegue a sua bateria”.

Durante a última semana de maio, os Beatles se reuniram na casa de George, em Esher, no Condado de Surrey, onde tocaram 27 músicas em versão acústica – conhecida depois como Esher Demos (CD 3). As sessões de estúdio começaram em 30 de maio de 1968, no Abbey Road Studios. Por 20 semanas, o quarteto dedicou a maior parte do tempo em sessões no estúdio. A técnica de gravação foi radicalmente oposta à usada em Sgt. Pepper’s. Em vez de acrescentar as partes separadamente em uma fita de várias faixas, as sessões foram gravadas em grupo com um vocal principal em fitas de quatro ou oito faixas. Normalmente, os Beatles gravavam tomada após tomada para uma música, como fica claro na tomada de número 102 de Not Guilty, uma faixa que sequer foi para o disco original. Ouça a canção aqui:

Estruturas musicais nervosas e fora de controle

Martin e os Bearles na fase de pós-produção do ‘White Album’

Este formato de gravação ao vivo resultou em uma estrutura nervosa, por vezes fora de controle, uma senha para novas sonoridades que despontariam no futuro como o punk e o indie rock. A sessão final aconteceu no dia 16 de outubro. Foi uma maratona de 24 horas com George Martin para escolher a sequência de músicas dos lados A e B dos discos 1 e 2 e para completar a edição das transições entre as faixas. O processo revelou-se estafante para o produtor, que acumulava outros trabalhos, entre os quais a trilha orquestrada para a animação Yellow Submarine, lançada um pouco depois. Martin tirou três semanas de férias do estúdio, confiando sua estimada sala de controle ao assistente Chris Thomas. Em 22 de agosto, Ringo também deixara as sessões por 11 dias. Ao retornar, deparou-se com a bateria coberta de flores, um gesto de afeto mesmo quando tudo levava a crer que os laços que uniam os Fab4 estavam prestes a se romper.

E foi justamente no álbum, em que os estilos dos quatro Beatles podiam ser percebidos, que as diferenças começariam a sobrepor as afinidades. A diversidade e ecletismo das composições do White Album proporcionaram
momentos como Happiness is a Warm Gun; Martha My Dear, quase um eco da sonoridade do Sgt. Pepper’s; Revolution, a resposta dura de Lennon aos radicais da contracultura que cobravam um maior engajamento político dos Beatles no efervescente ano de 1968 foram os versos “But when you talk about destruction / Don’t you know that you can count me out” (“Mas quando você fala de destruição / Sabe que não pode contar comigo”). Também proporcionou as líricas Julia e Blackbird; detonou um bomba sexual no blues elétrico Why Don’t We Do It in the Road; o groove da instrumental Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey e as protopunk Birthday e Helter Skelter.

Descascando a cebola de vidro

 

Giles Martin, um trabalho minicioso sobre as gravações integrais do ‘White Album’

Para criar os sons estéreo e 5.1 surround para o White Album, Giles Martin e Sam Okell trabalharam com um
time de engenheiros especialistas e restauradores de som. A nova versão inclui o mix estéreo de George Martin, tirado diretamente das fitas de quatro e oito faixas, que guiou todo o trabalho. “Ao remixar o White Album, tentamos trazê-lo o mais próximo possível dos Beatles em estúdio”, explica Giles. “Descascamos as camadas da ‘cebola de vidro’ com a esperança de inserir velhos e novos fãs em um dos mais diversos e inspiradores discos já feitos”, disse, numa referência a Glass Onion. No vídeo abaixo, Giles Martin explica, nos estídios de Abbey Road, o trabalho feito na remixagem do White Album em depoimento ao jornalista Pete Mitchell, da Virgin Radio UK:

A arte minimalista do White Album foi criada pelo artista britânico Richard Hamilton, uma das principais figuras envolvidas no conceito da pop art que teve na Inglaterra seu centro mais pulsante. O exterior todo branco traz as palavras “The Beatles” em alto-relevo na frente e o número de catálogo do disco, na lateral. As primeiras edições também foram numeradas na frente, o que foi feito igualmente para a versão Super Deluxe da edição remasterizada.

A versão com seis CDs e Blu-ray vem em um pacote que contém um livro de 164 páginas, que reproduzem a cor brilhante do disco original com fotos de John, Paul, George e Ringo, além do pôster com uma colagem de fotos em um lado e as letras das músicas escritas à mão do outro, fotos nunca publicadas, partituras e caixas de fitas, além de reproduções dos anúncios originais do álbum.

O primeiro álbum lançado pela Apple

Capa do ‘White Album’

As partes escritas do livro trazem depoimentos de Paul e Giles Martin, que explicam detalhes das faixas e das sessões e informações sobre os preparativos do lançamento mundial. Especialistas em Beatles, o historiador Kevin Howlett e o jornalista John Harris escrevem artigos sobre o legado do álbum duplo. O White Album foi o primeiro disco dos Beatles a ser lançado por sua própria gravadora, a Apple, o que explica em parte seu viés libertário.

Lançado em estéreo e mono no Reino Unido e em estéreo nos Estados Unidos, o disco duplo imediatamente se tornou um fenômeno de vendas, entrando no chart britânico em 1º lugar e ficando lá durante oito das 22 semanas em que apareceu na parada. Também estreou em primeiro lugar nos Estados Unidos e manteve a posição em nove de 65 semanas.

Em crítica à revista “Rolling Stone”, o cofundador da publicação Jann Wenner foi direto ao ponto: “É o melhor disco
que eles já lançaram, e somente os Beatles são capazes de fazer algo ainda melhor”. Nos Estados Unidos, o álbum recebeu o certificado de platina 19 vezes. Em 2000, foi colocado no Hall da Fama do Grammy, por suas “gravações de qualidade interminável e significância histórica”. Ao mesmo tempo que foi a banda mais bem-sucedida da história do rock, foi a que mais se arriscou musicalmente e isto não passou em branco.

 

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