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Wilson Moreira, o adeus de um grande sambista

Nelson Sargento um dia cantou que “em Mangueira, quando morre um poeta todos choram”. Mas não é só a verde e rosa que pranteia por seus bambas. Hoje temos lágrimas de todas as cores para verter com a saída de cena de um grande sambista. Autor dos sucessos Gostoso Veneno, De Pé no Chão, Deixa Clarear e Judia de Mim, imortalizadas nas vozes de Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes e Zeca Pagodinho, Wilson Moreira morreu na noite desta quinta (6), aos 81 anos, em função de problemas renais decorrentes de um câncer de próstata. Ele deixa a pesquisadora e produtora cultural Angela Nenzy, com quem era casado desde 1996. Seu corpo será velado de 9h a 14h desta sexta, na Câmara Municipal. Em seguida, será levado para o Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, onde será sepultado às 15h30.

Antes de se consagrar como cantor e compositor, perambulou por várias profissões, tais como a de vendedor de amendoim (que lhe rendeu o apelido de infância), entregador de marmita, engraxate, guia de cego e agente penitenciário. Também teve músicas gravadas por outros nomes de peso da música brasileira, como João Nogueira, Elizeth Cardoso, Candeia, Jair Rodrigues, Emílio Santiago, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Zélia Duncan, Djavan, Sandra de Sá, Dudu Nobre, Leny Andrade, Elza Soares, Moacyr Luz e Jorge Aragão. E teve em Nei Lopes o seu parceiro mais frequente.

Nascido com a tradição do jongo

Nascido em Realengo, na Zona Oeste, interessava-se vivamente por uma batucada, até por ser neto de músicos de
jongo. Aos 16 anos, frequentava as quadras de escolas de samba do bairro, a ponto de integrar a bateria da Água Branca, tocando tamborim, até a fusão da agremiação com a Mocidade Independente de Padre Miguel, da qual foi fundador. Na nova escola, trocou de instrumento, adotou o surdo, e fundou sua ala de compositores.

Em 1968, ingressou na Ala de Compositores da Portela pela qual desfilou várias vezes nas comissões de frente da agremiação e em carro alegórico com os membros da Velha Guarda e outros portelenses ilustres. A escola de Oswaldo Cruz divulgou nota oficial comentando a perda de seu integrante. “O presidente Luis Carlos Magalhães, o Departamento Cultural e toda a diretoria da escola lamentam profundamente a morte de Wilson Moreira e se solidarizam com a família e os amigos do sambista neste momento de luto”, diz o texto. A Mocidade também
chorou seu bamba. “A Mocidade Independente de Padre Miguel rende suas homenagens ao grande compositor
Wilson Moreira, autor dos nossos sambas de 1962 e 1963. Expressamos nossa solidariedade a seus familiares,
desejando que Deus os conforte nesse momento”, postou a escola em sua página do Facebook, referindo-se ao bicampeonato do carnaval carioca.

Veja no vídeo abaixo a participação do sambista num show do Casuarina em que interpreta uma de suas sublimes criações, Senhora Liberdade (gravada originalmente por Zezé Motta em 1979 e que tornou-se um hino informal da campanha pela abertura politica):

Fluminense e Portela, as duas paixões de Seu Wilson

Na Portela, fez amigos como o compositor Luiz Carlos Máximo, bem mais novo que ele, mas com outros amores em comum. “Ele me ligava pra gente conversar sobre o Fluminense e Portela. Um dia, fiz uma camisa para homenageá-lo (um desenho do sambista com a camisa tricolor e a inscrição ‘Okolofé Fluzão’, referência a um de seus álbuns) e levei até a sua casa. Ele ficou com os olhos cheios d’água. Eu também. Agora, a minha vai ser emoldurada e colocada na parede pra quem entrar na minha casa e me perguntar quem é e eu possa dizer quem foi Wilson Moreira. Para que eu possa dizer que seu Wilson foi o ser humano que deu certo. Claro que vou contar que foi um dos maiores compositores do Brasil e botar pra tocar suas músicas. Mas, sobretudo, vou dizer que ele sempre me trouxe a esperança de que é possível um mundo com simplicidade e ternura”, relatou, emocionado.

Respeitado mesmo tendo mudado de escola

Um dos principais compositores da Portela, Monarco ressaltou a “amizade de mais de 50 anos” e o “privilégio
de ele ser portelense”, frisando que, mesmo após trocar de escola, Wilson Moreira continuou respeitado pela
Mocidade. “Ele tratava todos bem, desde os de mais idade até os mais jovens, e também era considerado por todos.
Tinha o apelido de Alicate porque apertava a mão da gente com uma força danada”, explicou.

Paulinho da Viola lembra do colega portelense como “uma pessoa extremamente generosa, educada, que não
falava muito, mas cantava muito, inclusive músicas de outros compositores”. O respeito era o mesmo em outras escolas de samba. Martinho da Vila, que já gravou Candongueiro, de Moreira e Nei Lopes, lamentou não poder mais compor em parceria com ele. “Era um sonho que eu tinha, que agora terminou em frustração”.

Financiado através de um crowdfunding, que conseguiu mais de 300 doadores, e produzido pelo violonista
Paulão 7 Cordas, o próximo álbum de Wilson Moreira, Tá com Medo, Tabaréu?, com composições inéditas de
seus mais de 50 anos de carreira, será lançado de forma póstuma. O instituto que leva seu nome, que fica na Praça da Bandeira, a poucos metros da casa onde o Alicate vivia , anunciou também que compositor também deve ganhar um livro com partituras de suas músicas.

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